Embora São Jorge seja padroeiro de países tão diversos como Inglaterra, Geórgia, Etiópia ou Catalunha, também deixou sua marca nos vinhedos da Borgonha. Lá, seu nome não apenas protege lendas, mas também uvas.
Um dos vinhedos mais emblemáticos da AOC Nuits-Saint-Georges leva seu nome: "Les Saint-Georges". Nomear assim uma parcela não era uma decisão qualquer; na Idade Média, era quase uma oração para pedir proteção divina... e prestígio terreno. Tanto que esse climat inspirou o nome de toda a cidade. Hoje, muitos acreditam que este Premier Cru deveria ser reconhecido como o primeiro Grand Cru da denominação. Mas como o santo que o batiza, continua lutando pelo lugar que merece.
Entre os grandes nomes que trabalham nesta região está Domaine Lamarche, uma joia familiar desde 1797. Situado entre Vosne-Romanée e Vougeot, o domaine produz verdadeiros tesouros no mítico Grand Cru La Grande Rue, um monopólio que apenas eles exploram e em outros Grand Crus como Clos de Vougeot, Échezeaux e Grands-Échezeaux.
Desde a trágica morte de François Lamarche em 2013, o legado está nas mãos de sua filha Nicole e sua prima Nathalie. Nicole leva a alma do vinhedo para a garrafa; Nathalie, o leme da adega. Desde 2010 trabalham de forma orgânica, e desde 2018, o nome nos rótulos é o de Nicole. Uma nova era, mesma raiz.
Exemplo de seu trabalho na Nuits-Saint-Georges, nos apresentam o Domaine Lamarche Nuits-Saint-Georges Rouge. Um vinho tinto elaborado com pinot noir cultivado organicamente e colhido manualmente. Na adega, é vinificado com entre 80% e 100% de desengace, dependendo da safra. Fermenta entre 15 e 18 dias em cubas abertas de carvalho, e amadurece de 16 a 20 meses em barricas, muitas delas novas.
O resultado é Domaine Lamarche Nuits-Saint-Georges Rouge, um tinto de equilíbrio impecável, que combina a tensão, a textura e a elegância características desta nobre apelação. Um vinho que, como o santo que dá nome à sua denominação, não precisa impor-se para deixar sua marca, pois sua força está na profundidade, não no volume.