O dramaturgo alemão Bertolt Brecht defendia que a arte não está apenas para entreter, mas para incomodar um pouco, para fazer pensar e questionar o que tomamos como certo. A arte, dizia ele, deveria provocar. E poucas obras se encaixam tão bem nessa ideia quanto Bambule – Revuelta, o filme escrito por Ulrike Meinhof em 1970 que gerou tal controvérsia que acabou sendo censurado.
O seu roteiro denunciava os métodos autoritários em lares e centros de menores e encenava uma revolta contra estruturas opressivas. Além da história concreta, o filme funciona como um espelho incômodo da sociedade da sua época: hierarquias rígidas, disciplina imposta e uma juventude que começa a dizer basta. Cinema com nervo, sem concessões.
Anos depois, Bambule surge em um lugar muito distinto, longe da tela e mais próximo da terra. Não como citação nem como homenagem explícita, mas como uma palavra carregada de energia. Assim se chama a gama de vinhos de Judith Beck, viticultora em Burgenland, Áustria, herdeira de uma propriedade familiar e de uma maneira muito pessoal de entender o vinho.
Após se formar em viticultura e ganhar experiência em vinícolas de Bordeaux, Piemonte e Chile, Judith assumiu a elaboração na propriedade familiar em 2004. Desde então, sua ideia é clara e sem grandiloquências: “O vinho, a alegria de viver e o prazer andam de mãos dadas. Preferimos vinhos que te acompanhem, que se desfrutem com todos os sentidos”.
Os vinhos Bambule nascem daí. Brancos com contato com a casca, tintos vibrantes e diretos, elaborados sem filtração nem enxofre adicionado. São vinhos vivos, com tensão, que não buscam agradar a todos nem se encaixar em um molde. Simplesmente são o que são.
Bambule! Furmint é um bom exemplo. Provém de solos pedregosos, bem drenados, em suaves encostas orientadas a sudoeste a 175 metros de altitude. É elaborado com furmint, uma uva que foi crucial na região quando Burgenland fazia parte da Hungria e que se destinava sobretudo a vinhos doces, até cair no esquecimento. Em 2017, Judith decidiu recuperá-la, atraída por sua acidez marcada, sua intensidade aromática e aquele ponto de caráter que a torna diferente.
A elaboração é simples e precisa: colheita manual, 5 dias de maceração, fermentação espontânea em tonneaux antigos e maturação em barricas usadas de 500 litros. Sem filtros nem maquiagem, permitindo que o vinho se expresse tal como é.
Fresco, afiado e com um final crocante e persistente, Bambule! Furmint é um brinde à identidade, à tensão e à liberdade. E às vezes, não há forma mais honesta de provocar.