Chamam-na de “Fa’bulle’euse woman”. E não é apenas um título engenhoso. O jogo de palavras —entre fabuleuse (fabulosa) e bulle (bolha)— lhe cai como uma luva a Delphine Brulez, a mulher que atualmente lidera Champagne Louise Brison. E não é para menos.
Louise Brison não é apenas uma vinícola. É uma história de resistência. Daquelas que começam sem épica e acabam se tornando legado. No início do século XX, Louise Brison mal conseguia manter alguns poucos vinhedos em uma época em que produzir vinho não proporcionava exatamente uma vida confortável. Mas onde outros viam dificuldade, ele viu futuro. E perseverou.
Graças a essa determinação quase obstinada, as gerações seguintes puderam continuar construindo. Até que em 1977 chegou outro ponto de inflexão: Francis Brulez decidiu mudar as regras do jogo e apostar em champanhes de safra, com amadurecimento em barricas. Uma decisão pouco comum na região, mas que acabaria definindo o estilo da casa.
Hoje é sua filha, Delphine, quem acolhe tudo isso e leva um passo adiante. Sem romper com o passado, mas sem ficar presa a ele. Esse equilíbrio —tão difícil— é precisamente o que define Louise Brison.
A vinícola, situada em Noé-les-Mallets, na Côte des Bar, trabalha há anos com uma filosofia clara: viticultura ecológica, mínima intervenção e máxima expressão do terroir. E isso se nota especialmente em seu chardonnay da Côte des Bar Blanc de Blancs Brut Nature. 100% chardonnay, sem adição de açúcar e sem fermentação malolática. O objetivo? Manter a frescura, a tensão e essa mineralidade tão característica dos solos kimmeridgianos do sul de Champagne.
Mas há mais por trás dessa aparente simplicidade. A vinificação é planejada ao milímetro para não romper o equilíbrio natural do vinho. Parte do mosto fermenta em barricas de carvalho, onde ganha textura e uma leve complexidade sem perder definição. Outra parte é mantida em tanques para preservar a pureza da fruta. Depois vem a segunda fermentação na garrafa —a essência do método tradicional—, onde o vinho desenvolve suas bolhas de forma lenta e natural.
O tempo sobre as lias também é crucial. Esse contato prolongado com as leveduras aporta volume, fineza na bolha e aqueles matizes sutis que lembram a padaria, mas sempre em segundo plano. Aqui nada se sobressai mais do que deveria.
E então está uma das decisões mais importantes: não adicionar licor de expedição. Ou seja, não “ajustar” o vinho no final. O que está na garrafa é exatamente o que o vinhedo e a safra proporcionaram.
Com Champagne Chardonnay de la Côte des Bar Brut Nature não há excesso de discurso. Não há artifício. Há a ideia clara de respeitar o que vem do passado e adaptá-lo ao que o vinho de hoje exige. Por isso Delphine se encaixa tão bem nesse conceito de “fa’bulle’euse”. Porque ela não se limita a continuar uma história. Ela a interpreta. A atualiza. E, acima de tudo, a mantém viva.