Quando ouves o apelido Ferrari, a tua mente provavelmente se transporta para o rugido de um motor, para o vermelho brilhante de um desportivo que corta o vento e para o luxo italiano em estado puro. Mas há outro Ferrari que não acelera nas pistas, mas sim nas alturas dos Alpes: Marco Ferrari, um viticultor que decidiu que os nebbiolos de Valtellina merecem recuperar a sua voz autêntica, aquela que fala de montanhas, terraços de pedra e paciência centenária.
A sua jornada começou em Franciacorta, a região onde a tradição efervescente do vinho espumante lhe ensinou que a paciência e o detalhe fazem a diferença. Mas rapidamente os seus passos o levaram para além de Itália, ao norte do Ródano, onde trabalhou ao lado de figuras lendárias como Franck Balthazar, Thierry Allemand e Gonon. Lá aprendeu que nos vinhedos mais íngremes, o trabalho manual não é uma escolha, mas uma obrigação, e que o respeito absoluto pela terra e pelas uvas é a chave para que um vinho chegue à taça contando a sua história.
De regresso a Itália, em 2018, Marco passou um ano em ArPePe enquanto procurava o seu próprio espaço. Não tardou a encontrá-lo, e a colheita de 2019 deu vida à sua propriedade homónima. Desde então, a sua filosofia é clara: viticultura ecológica, fermentações com cachos inteiros quando o engaço está pronto, longas macerações e uma intervenção mínima que permita ao terreno e às uvas expressarem-se com total liberdade. Os seus vinhedos escalam encostas que vão dos 300 aos 700 metros de altitude, sustentados unicamente por muros de pedra e terraços que parecem desafiar a gravidade e o tempo. A idade média das videiras supera os 60 anos, e cada cacho colhido à mão é um pequeno milagre da natureza e do cuidado humano.
Rosso di Valtellina emerge deste ambiente desafiador, com solos que misturam areia, cascalho e rocha granítica formada pelo rio Adda ao longo dos séculos. As uvas de nebbiolo fermentam e maceram juntas em tanques durante semanas, deixando que a natureza faça o seu trabalho enquanto Marco intervém apenas o essencial. A maturação de 7-8 meses em barricas antigas, de 500 e 600 litros, aprimora a estrutura sem apagar a essência do terreno. O resultado é um vinho que respira a montanha, sem artifícios, direto e sincero.
Marco Ferrari Rosso di Valtellina demonstra que nem todos os Ferrari rugem na pista; alguns fazem-no desde os terraços de pedra de Valtellina, contando histórias que não se esquecem e que, gole após gole, te lembram que a grandeza também pode ser silenciosa e profundamente autêntica.