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Entrevista com Gorka Mauleon da Mozo Wines

09/09/2026 Entrevistas
Entrevista com Gorka Mauleon da Mozo Wines

Conhecer Gorka é deparar-se com uma energia contagiante. Ele fala sobre vinho, vinhedos e La Rioja com uma clareza e paixão tais que é difícil acreditar que durante anos trabalhou como informático.

Ao vê-lo explicar cada recanto de sua terra, é inevitável pensar que aquele talento para comunicar estava subaproveitado diante de uma tela. Porque Gorka não fala apenas de vinho; ele narra histórias, transmite emoções e consegue que alguém se apaixone por essa Rioja pequena, autêntica e profundamente querida que tantas vezes fica ofuscada pelos grandes nomes.

Mas para entender Gorka é preciso também compreender Lanciego, uma vila onde a cultura do vinho está profundamente enraizada e onde as vinhas fazem parte da memória coletiva. Aqui, o vinho nunca foi apenas uma atividade econômica, mas uma forma de se relacionar, de se reunir e de compartilhar a vida. Gorka, que também foi prefeito da localidade, conhece bem esse vínculo entre território, vizinhos e tradição.

Hoje, junto com sua parceira Itxaso e Unai, irmão dela e terceira geração da família, é um dos guardiões de um patrimônio único. Um legado construído com base em vinhedos antigos, memória camponesa e uma forma de entender o vinho que olha para o passado para construir o futuro.

Uma história de retornar para seguir em frente

O projeto nasceu nos anos 70 pelas mãos de Cesáreo, conhecido carinhosamente como "El Mozo". Em 1980, começou a elaborar e vender vinho a granel por meio de maceração carbônica, o estilo tradicional da região.


Décadas depois, a história deu uma reviravolta. Itxaso, neta de Cesáreo, e Gorka haviam construído sua vida longe da vila, entre Barcelona e Sant Cugat del Vallès. Mas em 2010, Félix, o pai de Itxaso, faleceu, e surgiu uma pergunta que mudaria o rumo de tudo: voltar ou deixar que o projeto terminasse? A resposta foi clara. Era preciso retornar.


Voltar não era apenas recuperar uma adega familiar; era regressar a uma terra onde o vinho sempre fez parte da identidade de seus habitantes. Em Lanciego, as vinhas marcaram durante gerações a vida social da vila. Antigamente, até se realizavam intercâmbios entre os jovens de Lanciego e Mendoza (Argentina), uma tradição que reflete como o vinho servia também como elo de união entre localidades de continentes distintos.


A mudança foi radical. Do escritório para os tratores. Das reuniões para o vinhedo. Dos computadores para as cepas. Embora ambos tivessem crescido entre vinhas, descobrir o que realmente significa fazer vinho foi uma verdadeira odisseia. E se elaborar vinho já é complicado, vendê-lo é ainda mais. Não bastam os conhecimentos técnicos. É preciso empatia, capacidade para contar histórias e muita perseverança. Gorka demonstra isso cada vez que fala. Ouvi-lo é entender que por trás de uma garrafa sempre há muito mais do que vinho.

O tesouro das vinhas antigas

Muito antes de as palavras "ecologia" e "sustentabilidade" se tornarem moda, eles já trabalhavam assim. Não por estratégia, mas por convicção. Simplesmente continuavam a forma de cultivar a terra que haviam aprendido de seus avós e bisavós. Em Lanciego, ninguém via isso como algo extraordinário, mas como a maneira natural de fazer as coisas.


Essa relação com a terra também explica a importância que concedem às suas vinhas antigas: cepas de 60, 70 e até 80 anos que conservam a diversidade de outras épocas, quando diferentes variedades conviviam em uma mesma parcela. Dessa riqueza nascem seus microvinhos ou, como diz Gorka, "parcelas engarrafadas". São vinhos que expressam fielmente o caráter de cada vinhedo.

Os desafios do presente

Mas o passado, por si só, não basta para responder aos desafios do futuro. A mudança climática já está transformando a realidade do vinhedo. As colheitas se adiantam, os ciclos agrícolas mudam e até muitas celebrações tradicionais perdem a referência temporal que durante gerações marcou o trabalho no campo.


A isso se soma a situação do mercado. Consome-se menos vinho do que há algumas décadas e Rioja carrega problemas de superprodução. Durante anos, predominou uma lógica baseada no "bom, bonito e barato", mas quando o preço se torna a única variável, alguém acaba pagando a conta. E quase sempre é o agricultor.


Por isso, Gorka insiste na necessidade de ensinar o que há por trás de uma garrafa. Famílias, vilas, gerações inteiras e pequenos produtores que lutam para manter vivo um território. Afinal, como ele mesmo diz, a despovoação começa no supermercado.


Talvez um dos grandes desafios pendentes de Rioja seja contar melhor sua própria história. Uma região muito mais diversa do que durante anos nos contaram. Existem paisagens, estilos, variedades e formas de elaborar que raramente aparecem no relato oficial. E comunicá-lo continua sendo uma tarefa pendente para muitas adegas que, paradoxalmente, têm histórias fascinantes para contar.


Enquanto falamos de tudo isso, na taça temos Herrigoia, um vinho que resume a filosofia da casa. Um vinho de maceração carbônica fresco e direto que acompanha a conversa com naturalidade, assim como a própria caverna de Mozo Wines, um antigo calado tradicional convertido em vinoteca onde compartilham vinhos, encontros e momentos com as pessoas da vila, recuperando esse caráter social que o vinho sempre teve em Lanciego.

Porque, no final, como acontece com a forma de entender o vinho de Gorka, uma garrafa não é apenas o que contém, mas tudo o que acontece ao seu redor.