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Artuke, sob a direção do enólogo Arturo Miguel

30/07/2025 Entrevistas
Artuke, sob a direção do enólogo Arturo Miguel

Chegamos a Baños de Ebro, coração verde do País Basco. Aqui não há tapetes vermelhos nem salões de degustação. Aqui vem-se para pisar lama, literalmente. Hoje é dia de mesa dobrável, duas cadeiras e, o mais importante: uma conversa genuína com Arturo Miguel, a alma de Artuke, um dos projetos mais pessoais e vibrantes da nova Rioja.

Chegamos na sexta-feira, 16 de maio, justamente quando fogos de artifício ressoam ao fundo. É San Isidro, padroeiro dos agricultores. E, claro, Arturo tem um almoço com o grupo do povoado. “Antes havia missa”, diz entre risos. “Mas como agora ninguém vai à missa... depois reclamam se as coisas vão mal”, solta com aquele humor basco, afiado e direto. Assim começa uma conversa daquelas que prendem e não soltam.


Subimos até Finca de los Locos, uma das parcelas mais altas e singulares de Artuke. As vistas são de tirar o fôlego, mas a história é ainda mais impressionante. Quando o avô de Arturo comprou esta propriedade, todos no povoado pensaram o mesmo: “Está louco”, daí o nome. Solo pobre, acesso complicado, uva branca… “Diziam que ali não teria sorte alguma. E agora… agora é um luxo”, diz Arturo, enquanto aponta para uma vinha onde tempranillo, graciano e viura convivem como antigamente. Tudo cultivado, colhido e fermentado junto, como se fazia antes, sem complexos.

Do aprendido ao vivido

Arturo é filho e neto de viticultores. Durante décadas, sua família vendia vinho a granel, como tantos na Rioja. Mas em 1991, seu pai decidiu mudar as regras do jogo e engarrafar com marca própria. Assim nasceu Artuke, acrônimo de seus dois filhos: Arturo e Kike.


Arturo foi o primeiro a assumir o comando em 2009; Kike juntou-se em 2011. Chegaram com formação universitária e muitas ideias novas. Mas, como tantas vezes, foi ao voltar para casa que começou o verdadeiro aprendizado.


“Saí da universidade de enologia com a cabeça cheia de vinhos Parker: estrutura, barricas pequenas, extração... Mas percebi que o mais revolucionário era olhar para trás. Voltar ao essencial. Ao nosso.” Por isso, recuperou práticas esquecidas como misturar variedades, fermentar em concreto, usar barricas grandes… “Se meu avô se levantasse, diria: ‘Mas vocês não inventaram nada!’”, solta entre gargalhadas.


O passado, longe de ser um obstáculo, tornou-se uma bússola. Mesmo no que se refere a instalações. “Se tivesse ampliado a adega recém-saído da universidade, teria construído no meio do vinhedo”, confessa. “Hoje sei que crescer com sentido é fazê-lo a partir do que já existe. Por história. Por respeito. Por coerência.”

Um defensor da paisagem

Pode ser que a família Miguel não faça parte das grandes sagas do vinho espanhol, mas Artuke conquistou seu lugar —e dos bons—. Qual é o segredo? Engarrafar o sabor real de uma paisagem.


E faz isso com o mais profundo compromisso. “Quando meu filho mais velho nasceu com alergias, repensei tudo. Comecei a olhar o que comíamos, como cultivávamos… e entendi que era preciso mudar. O ecológico não é uma moda, é o único caminho. Se queremos que esta paisagem exista daqui a trinta anos para nossos filhos, não há outra.”


Arturo fala com calma, mas cada frase carrega peso. Ele sabe que Rioja é diversa e complexa, e que não pode ser reduzida a um único modelo. “Só apoiando os pequenos que vivem colados ao vinhedo, poderemos defender e dar voz a este território.”


Define-se com humor como um “viejoven”. Mas é daqueles que acreditam nas novas gerações. Em jovens formados, viajados, que decidem voltar. E, sobretudo, que valorizam o que é seu. “Isso é fundamental”, diz.

Daí nasce Rioja’n Roll, um coletivo de pequenos produtores unidos por uma forma distinta de entender o vinho: com identidade, com raízes, com alma. “Somos colhedores do século XXI”, resume Arturo. “Estamos na vinha, na adega e no mercado. Mas fazer tudo sozinho dá vertigem. No Rioja’n Roll nos apoiamos. Nos ajudamos. Porque se você vai sozinho, vai rápido. Mas se vai acompanhado, chega mais longe.”


E não para por aí. Também é presidente de Futuro Viñador, uma rede nacional que agrupa adegas familiares com uma missão clara: defender o ofício, cuidar do território e apostar por uma viticultura honesta e com futuro.

Brinde com sentido

Chegados a este ponto, a conversa adentra o momento atual do vinho. “Sim, hoje bebe-se menos vinho. Mas se as pessoas soubessem tudo o que há por trás de uma garrafa, valorizariam muito mais”, reflete Arturo. Não soa como uma queixa, mas como um convite. A olhar de perto. A entender a origem.


Novas ferramentas como as redes sociais ajudaram a mostrar o que antes ficava nos bastidores. Mas ainda falta cultura, falta educação, faltam histórias como esta, que conectem as pessoas com o que há dentro da taça.


Por isso, a visita termina como deve: em sua casa, com uma garrafa de La Condenada aberta sobre a mesa. Um tinto que colocou Artuke no radar dos críticos mais exigentes do mundo. Mas que, além de medalhas, sabe exatamente ao que Arturo defende: paixão, autenticidade, raízes e futuro.


Não há melhor forma de encerrar esta viagem. Aqui não há poses. Há lama. Há verdade. E, sobretudo, há alma.