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Descobrindo Agustí Torelló Roca, cofundador e enólogo da AT Roca

22/07/2026 Entrevistas
Descobrindo Agustí Torelló Roca, cofundador e enólogo da AT Roca

Chegamos a AT Roca e a primeira coisa que nos cativa não é a adega, mas sim a paisagem. Sant Sebastià dels Gorgs é uma daquelas pequenas aldeias do Penedès que parecem suspensas no tempo. Vinhedos ao redor, caminhos tranquilos e vistas amplas que explicam, sem palavras, por que este lugar é tudo para quem o cultiva. E, desde 2023, é também o coração da nova adega desta família.

Encontrar o local perfeito para entrevistar Agustí Roca revela-se, paradoxalmente, um pequeno dilema. Não pela falta de lugares, mas pelo excesso deles. Cada canto é adequado; o terraço com o vale ao fundo, a própria vinha, o interior da adega recém-inaugurada... No final, compreendemos que aqui o cenário não é um mero pano de fundo. É parte integrante do discurso. E talvez por isso a conversa flua sem esforço. Agustí Roca fala do Penedès como quem fala de casa, porque, na verdade, é.


Uma história que vem de longe

O projeto de AT Roca formaliza-se em 2013, mas a sua história é muito mais longa. A família carrega gerações ligadas ao vinho. Os bisavós tinham ofícios muito distintos; um era alfaiate, o outro músico, mas após a pós-guerra, como tantas famílias da região, tiveram que se reinventar. Nesse processo, o vinho espumante tornou-se um modo de vida. “O vinho foi consumido em casa como um modo de vida”, resume Agustí. Não como uma indústria distante, mas como algo cotidiano, presente à mesa, nas celebrações e nas conversas familiares. “Vivemos e sofremos isso. Faz parte do nosso ADN”.


Desde 2023, a família deu um passo importante ao concentrar todo o processo na sua própria adega em Sant Sebastià dels Gorgs. Um movimento que não altera a essência, mas sim a reforça, trabalhando desde a origem, com a vinha a poucos metros e a paisagem como ponto de partida constante.


O vinho começa na vinha

Para Agustí Torelló Roca, tudo começa antes da adega, até mesmo antes da uva. Começa no solo. “O solo é um ente vivo e queremos conhecê-lo”, explica. Essa visão define boa parte da sua filosofia. Ouvir mais do que impor, observar mais do que intervir. A viticultura que defendem recupera práticas tradicionais mediterrâneas de sequeiro, adaptadas ao clima e ao equilíbrio natural do vinhedo. A poda, o respeito pelos ciclos e a leitura constante de cada parcela fazem parte de uma forma de trabalhar onde a técnica está ao serviço do território, não o contrário.


Enquanto conversamos em frente a Els Gorgs, a vinha que se estende logo atrás de onde estamos sentados e que dá nome ao Corpinnat que degustamos, uma ideia reaparece repetidamente. O vinho só faz sentido quando está profundamente ligado à sua origem. Só então pode realizar aquilo que os grandes vinhos conseguem; transportar quem os bebe.


Penedès: muito mais que um método

Nessa maneira de entender o vinho, o Penedès não é uma denominação nem uma técnica. É uma paisagem. “Para além das grandes extensões, há uma enorme variedade de parcelas”, explica. O vale, aberto ao Mediterrâneo e rodeado de montanhas, esconde uma diversidade de solos e microclimas que rompem qualquer ideia de homogeneidade. Entre eles, destaca-se o carbonato de cálcio, herança de milhões de anos sob o mar, que confere uma marcada sapidez aos vinhos da região.


Nesse contexto, surge uma afirmação clara, sem matizes desnecessários: “Nós nunca fomos cava”. A frase pode surpreender, especialmente numa comarca historicamente vinculada aos espumantes elaborados sob a D.O. Cava. Mas não responde a uma vontade de distanciamento, e sim a uma maneira distinta de entender a identidade do vinho. Desde o início, a família focou-se na origem, nas vinhas e na expressão do território acima de qualquer categoria comercial.


Essa visão conecta-se com Corpinnat, a marca coletiva criada por um grupo de produtores do coração do Penedès que, após desvincular-se da D.O. Cava, apostaram numa regulamentação mais exigente centrada na procedência da uva, no cultivo ecológico e na elaboração integral na propriedade. Mais do que um rótulo, entendem-no como uma maneira de ordenar e explicar melhor o que já faziam.


Anima Mundi: o laboratório do vinho

Dentro do projeto, existe também um espaço para a exploração: Anima Mundi. Aqui são elaborados vinhos de mínima intervenção, pet-nats e propostas com variedades como macabeo e xarel·lo, trabalhadas a partir de uma perspectiva mais livre. É o lugar onde se experimenta, arrisca e descobre novas expressões do mesmo território. Longe de competir com a adega principal, Anima Mundi a complementa. Uma consolida. A outra expande.


Em AT Roca, o vinho não é entendido como um produto isolado, mas como uma forma de interpretar o território. E talvez por isso, quando alguém se senta aqui com uma taça na mão, a sensação não é apenas a de estar numa adega. É a de estar, simplesmente, em casa.