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Decántalo
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Descobrindo Álvaro Palacios na DOCa Priorat

25/03/2026 Entrevistas
Descobrindo Álvaro Palacios na DOCa Priorat

Vamos conhecê-lo e, como não poderia deixar de ser, os nervos estão à flor da pele. Não é todos os dias que se tem a oportunidade de entrevistar uma das grandes personalidades do mundo do vinho. Todos te disseram que a visita vale a pena, que é uma experiência única, que a figura é especial. Mas, mesmo assim, quando chega o momento, ficas sem palavras.

Porque Álvaro Palacios é como um Peter Pan do vinho: inesgotável, entusiasta, com uma energia que te contagia desde o primeiro instante. Fala, emociona-se, salta de um tema para outro e retorna ao ponto de partida com total naturalidade. E há algo que logo se torna evidente; qualquer pergunta, cedo ou tarde, acaba levando-o à história.

Palacios possui um vasto conhecimento e uma memória prodigiosa para o passado do vinho. Começa falando de uma vinha e, em questão de segundos, está evocando como se entendia o vinhedo há um século ou como nasceram as grandes regiões europeias. Em seu discurso tudo está interligado: tradição, paisagem e cultura fazem parte de uma mesma conversa que ele vem estudando, vivendo e reinterpretando há décadas. Essa mistura de paixão, intuição e curiosidade permanente explica boa parte do que ocorreu no Priorat nas últimas décadas.

Os visionários do Priorat

Palacios faz parte daquele pequeno grupo de visionários — alguns diriam inconscientes, outros sábios — que nos anos oitenta viram algo que quase ninguém mais percebia: magia.


Naquela época, o Priorat era um território árduo, com encostas quase impossíveis e esquecido, com vinhas abandonadas como tantas outras zonas vitícolas da Espanha. Eles compreenderam algo fundamental: o importante não era a adega, era a vinha.


Hoje essa ideia pode parecer evidente, mas então era revolucionária. O valor estava na paisagem, nas velhas cepas, na energia de um território abrupto de xisto e encostas extremas. As encostas são tão íngremes que mover-se sem um 4x4 é quase impossível. “Estamos em Júpiter. Ou em Marte”, diz Álvaro enquanto paramos entre suas maravilhosas vinhas. Não parece exagero.

A identidade dos povos

Os povos do Priorat têm uma personalidade própria, e essa identidade também se reflete no vinho. Palacios insiste em honrar o município.


“Não se trata de copiar Borgonha”, enfatiza. Lembra que tanto no Priorat quanto em Rioja ou outras zonas do país, antigamente, os rótulos primeiro mostravam o nome do povoado e depois o da região, situando o vinho em seu lugar real de origem.


Recuperar a origem do vinho é o objetivo do projeto pioneiro da DOCa Priorat: a classificação “Los Nombres de la Tierra”. Álvaro explica que uma boa classificação é aquela que segue os passos das grandes regiões vitivinícolas europeias. Assim, cada vinho reflete seu próprio nível de identidade: desde o Vino de la DOCa Priorat, que reflete a personalidade genérica regional da denominação, até o Vi de Vila, que transmite a tipicidade de um município; o Vi de Paratge, que expressa um caráter ligado à orografia e ao geoclima de uma parcela do município; a Vinya Classificada, fruto de vinhas únicas com virtudes excepcionais; e a Gran Vinya Classificada, verdadeiras joias onde os caprichos da natureza e uma grande tradição se unem para criar vinhos únicos de alcance sublime e de transcendência espiritual.


É um conceito que olha para o futuro, mas que nasce do passado. E é que no Priorat cada parcela é distinta: muda a orientação, a altitude, os solos de llicorella, o vento, a luz... tudo influencia. Por isso o trabalho na vinha exige uma sensibilidade extrema. As produções são pequenas, e muitas vezes, inclusive, seguem-se os ciclos da lua. A viticultura aqui é totalmente artesanal.


“Não bebo variedades, bebo lugares”, diz Palacios, e depois de percorrer essas vinhas que parecem saídas de outro planeta, entende-se perfeitamente o que ele quer dizer.

L’Ermita: a magia do Priorat

Se algo encantou Álvaro foi L’Ermita, um vinhedo de apenas quatro hectares que o fez mergulhar de cabeça no Priorat.

“L’Ermita nos deu tudo”, diz. E ao ouvi-lo, entende-se que ele não fala apenas de vinho — uma das joias mais exclusivas da enologia espanhola — mas de uma vida dedicada a compreender um lugar único. Este vinhedo, catalogado como Gran Vinya Classificada, está localizado em Gratallops, sobre encostas muito íngremes com orientações norte e leste, entre 400 e 500 metros de altitude. As vinhas têm entre 85 e 105 anos e crescem sobre solos de xisto de estrutura laminar esverdeada em um conglomerado de quartzo muito singular que conferem essa grande personalidade ao vinho. Uma personalidade que voltou a colocar esta região em órbita mundial, e o fez respeitando sua essência, sua história e seu povo.


Assim, depois de percorrer as vinhas, ouvi-lo falar e provar os vinhos onde nascem, a sensação torna-se inevitável. Tudo o que você havia lido e ouvido sobre Álvaro Palacios e o Priorat — seus vinhos, sua revolução, sua maneira de entender o vinhedo — finalmente faz sentido.


Então tudo se encaixa.
Agora sim.
Agora sim posso dizer: é magia.