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Decántalo
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Descobrindo Bertrand Sourdais de Dominio de ES

12/08/2026 Entrevistas
Descobrindo Bertrand Sourdais de Dominio de ES

Entrevistar Bertrand Sourdais não é tarefa simples. Ele chega com a energia de quem está constantemente envolvido em múltiplos projetos simultaneamente, e mal é necessário lançar a primeira pergunta para que a conversa comece a fluir. Uma ideia leva a outra, uma anedota culmina em uma reflexão e, quase sem perceber, ele já respondeu a tudo o que você queria saber e muito mais.

Um fluxo de conhecimento, memórias e convicções retratam um homem incapaz de dissociar o vinho da vida. E tudo isso temperado com expressões que surpreendem em um francês nascido no Loire. Fala de ser um "espírito inquieto", de "meter-se em encrencas" ou de ter sempre "confusões em mãos" com a naturalidade de quem passou metade da vida na Espanha. É difícil não se deixar contagiar por seu entusiasmo.

Já se passaram 25 anos desde que este francês chegou à Ribera del Duero soriana. Ele veio pela mão de Álvaro Palacios, a quem admira por essa capacidade, como ele mesmo diz, de atravessar muros para mostrar ao mundo o que realmente é o vinho espanhol.

A lição de Soria

"Cheguei pensando que era o rei... e descobri que não tinha ideia". Bertrand Sourdais não evita a autocrítica. Chegou à Ribera del Duero soriana com apenas 23 anos, uma sólida formação enológica e experiência em algumas das melhores vinícolas. Acreditava que tinha as ferramentas necessárias para elaborar grandes vinhos, mas a primeira vindima, no ano 2000, encarregou-se de lembrá-lo de que o vinhedo sempre tem a última palavra. Embora soubesse muito... o vinho não fermentava. Aquela experiência foi uma lição de humildade. "A agricultura sempre acaba colocando seus pés no chão", resume.


No entanto, aquele aprendizado não significou abandonar a sensibilidade que trazia do Loire. Pelo contrário, seu olhar foi precisamente uma de suas grandes contribuições. Chegou a uma Ribera del Duero onde predominavam os vinhos de potência e estrutura, enquanto ele defendia uma interpretação mais leve, fresca e elegante, inspirada na tradição de sua terra natal. Isso sim, antes teve que aprender a ouvir o lugar que tinha diante de si. "Tudo o que me ensinaram na universidade tinha pouco a ver com o legado que encontrei aqui".


Com o tempo, compreendeu que esse legado era o verdadeiro tesouro de Soria. Um patrimônio de vinhas velhas, paisagens e conhecimento acumulado ao longo de gerações. Seu trabalho consistiu em unir ambas as visões, permitindo que o clima, a altitude e essas cepas antigas se expressassem com maior precisão, sem nunca perder a identidade do território.

O tesouro que quase ninguém via

Sourdais fala de Soria com uma mistura de admiração e gratidão. Chama-a de "minha Soria". E talvez precisamente porque durante décadas foi uma terra esquecida, conservou algo que hoje se revela extraordinário. Enquanto em outros lugares arrancavam-se vinhas antigas para plantar variedades mais produtivas, aqui houve pouca transformação. O abandono acabou se tornando uma vantagem; o patrimônio vitícola permaneceu intacto. Como ele mesmo diz: "ter um pé no passado dá um sabor diferente em um mundo que vai rápido demais".


E é que se há algo que obceca Bertrand mais do que o solo é o clima. Para ele, aí está uma das chaves de Soria. Situada entre o Sistema Ibérico e o Sistema Central, a região conta com duas grandes barreiras naturais que funcionam como um sistema particular de regulação térmica. "Temos um ar condicionado grátis. Às vezes sai um pouco caro…, mas é grátis".

As geadas, as diferenças térmicas, a altitude ou o vento fazem parte do preço a pagar por elaborar vinho neste território. Mas precisamente essas condições extremas são as que permitem alcançar uma expressão única. Recorda um ensinamento de seu pai e de seu avô: "A melhor expressão de uma variedade aparece quando está no limite setentrional de seu cultivo". E para ele, Soria representa exatamente isso; uma fronteira climática onde a vinha deve se esforçar e, precisamente por isso, pode oferecer sua personalidade mais autêntica.

Cada safra tem nome e sobrenome

Ouvir Bertrand Sourdais falar das colheitas é compreender até que ponto vive atento ao vinhedo. Recorda com uma precisão quase obsessiva como foi cada primavera, quando chegou uma geada, o que ocorreu durante o verão ou como uma parcela específica respondeu após uma tempestade inesperada. Fala de cada safra como quem fala de um filho, porque sabe que nenhuma se parece com a anterior. Cada ano o clima escreve uma história diferente sobre o vinhedo e essa história fica registrada no vinho.


Por isso fala dos vinhos de cada ano com a mesma proximidade com que outros recordam momentos de sua própria vida. Não busca que todas as colheitas sejam iguais, mas que cada uma conserve a memória do que ocorreu no vinhedo. Para Bertrand, aí reside a grandeza do vinho; em sua capacidade de guardar uma paisagem, um clima e um instante irrepetível dentro de uma garrafa. E essa é a marca que encontramos em cada um de seus vinhos. Talvez por isso, quando a conversa termina, dá a sensação de que não apenas se descobriu um grande elaborador, mas um homem que veio para fazer vinho e acabou encontrando um lugar para chamar de lar.