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Decántalo
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Descobrindo Dani Martín, diretor técnico da Bodega Los Bermejos

06/05/2026 Entrevistas
Descobrindo Dani Martín, diretor técnico da Bodega Los Bermejos

Chamam-lhe "o vinhedo do impossível". E não é exagero. Cultivar em Lanzarote, nas Ilhas Canárias, é negociar constantemente com o clima, a água e a lógica. Lá, entre buracos negros e muros de pedra que parecem desenhados à mão, trabalha Dani Martín, diretor técnico da Bodega Los Bermejos, um sujeito que fala das vinhas como quem fala da família. Porque, no seu caso, é tudo um pouco...

De pura cepa, nunca melhor dito. Nasceu em Tinajo, um município dentro da Paisagem Protegida de La Geria, em uma casa onde o vinho não era tendência nem passatempo: era pura rotina. Seu pai trabalhava no campo, embora por um tempo —impulsionado pelo boom do turismo— trocou a terra pela construção. Mas o essencial nunca se foi.
Cresceu entre vinhas e, como costuma acontecer quando a terra chama, acabou voltando a elas. Estudou Enologia em Cádiz, passou por gigantes como Vega Sicilia e aportou em Los Bermejos para fazer estágio. E aqui ficou. Porque, no final, a cabra sempre volta ao monte.


Uma adega é uma adega”, diz ele, “mas o que está aqui fora é único”. E não é uma frase feita. Quando se pensa nas Canárias, pensa-se em Lanzarote. Mas quando se entende de vinho, compreende-se que em La Geria joga-se em outra liga. Uma paisagem esculpida pelas erupções vulcânicas e reinventada pelos camponeses, que transformaram um território hostil em um vinhedo único no mundo.


Entre vindimas e raízes

Dani acaba de ser pai, e a licença terminou justamente em julho, quando começa a vindima. Sem pausa. Duas criações ao mesmo tempo: a familiar e a profissional. E em ambas há algo em comum: paciência, intuição e muito amor. Talvez por isso seu discurso se afaste do manual. Fala mais de desaprender do que de saber. De ficar com o “livro velho” herdado de seu pai e com os conselhos de viticultores que há 70 anos lutam com a ilha. Aqui, insiste, é outro mundo. Um onde cada cepa é cuidada como se tivesse nome próprio.
O vento alísio traz essa salinidade que depois aparece, sutil mas inconfundível, em cada gole. Mas também castiga. Sopra forte, quebra, obriga a levantar muros semicirculares que protegem as vinhas como refúgios lunares. E nesse cenário extremo, as cepas sobrevivem em pé franco, alheias à filoxera que nunca conseguiu se instalar aqui.


Uma garrafa por cepa

A joia da coroa é a malvasia volcânica. Uma variedade única, com uma mineralidade irrepetível e uma produção baixíssima. Apenas uma garrafa por cepa. Literalmente. Vinhos com aquele ponto salino que te impulsiona a voltar à taça quase sem pensar.
“Sou um enólogo péssimo porque não faço nada”, brinca Dani. Mas não cola. Porque para não fazer nada é preciso saber muito. E senti-lo. Lanzarote não é só vulcão; há nuances, microterroirs, solos que mudam completamente o caráter da uva. E ele os conhece todos.
Hoje, encontrar uma garrafa de Bermejo em uma carta de Nova York já não surpreende. E para Dani não é apenas uma conquista profissional; é uma pequena vitória local. Ainda assim, 80% da produção fica nas Canárias e as colheitas continuam sendo curtas. Aqui, nada sobra.


O luxo do essencial

Até mesmo as garrafas contam uma história. Com aquele design peculiar que lembra o azeite italiano, foram pensadas para se destacar, mas também para se adaptar à hotelaria e reduzir ao mínimo a pegada de carbono. Aqui tudo é medido. Tudo é otimizado. Porque o luxo, neste contexto, é a eficiência. 
A mudança climática aperta em todos os lugares, mas aqui se sente antes. Ainda assim, Dani vive isso com naturalidade. É parte da identidade da ilha. Fala da cultura da água lembrando de sua avó que fervia batatas e essa mesma água passava para a vizinha continuar cozinhando. Nada se perdia. Tudo se aproveitava. Essa mentalidade continua viva no vinhedo.
E é por isso mesmo que o futuro passa por entender melhor a ilha. Experimentar com variedades autóctones como a Diego, testar materiais como o concreto ou a cerâmica, mas, sobretudo, ouvir o vinhedo. Porque em Lanzarote o vinho não se força. Se entende. E Dani Martín parece ter claro o idioma.