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Decántalo
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Descobrindo Dominik Huber, enólogo fundador de Terroir al Límit

18/09/2024 Entrevistas

Originário da Baviera, Alemanha, Dominik Huber mudou-se para o Priorat há mais de duas décadas com dois propósitos bem definidos: aperfeiçoar seu domínio do espanhol e aprofundar-se no mundo da enologia. Graças à sua perseverança e meticulosidade, alcançou esses objetivos, e seu esforço foi recompensado com os cobiçados 100 pontos Parker pelo seu vinho Les Manyes 2016. Hoje, com seus dois projetos bem estabelecidos, Terroir Sense Fronteres no Montsant e Terroir al Límit no Priorat, Huber defende vinhos sem madeira que destacam a frescura, pureza e versatilidade das paisagens. Vinhos 100% gastronômicos que demonstram que um Priorat/Montsant mais fluido é possível. É um prazer poder entrevistá-lo!


1- Embora você não venha do mundo do vinho, possivelmente o fato de sua família se dedicar à venda de carne tenha sido um ponto decisivo na sua aposta pela elaboração de vinhos gastronômicos. O que te fez se apaixonar pela vinha?
Meu avô tinha uma loja de carne e em minha casa o bom comer sempre foi importante. Na Itália, concretamente na Ligúria, me apaixonei pelo mediterrâneo e seus pratos e entendi que sem um bom vinho a gastronomia não faz sentido. Se a isso somarmos que sempre fui um apaixonado pela natureza e que gosto de trabalhar com as mãos, a viticultura me oferece tudo.


2- Sabemos que você cruzou os Pirineus com a intenção de superação, mas por que escolheu especificamente o Priorat para desenvolver sua carreira vinícola?
Os responsáveis são Josep Lluís Pérez e sua filha Sara Pérez, que me acolheram no Clos Martinet durante 6 semanas de vindima. Tudo começou quando seu distribuidor na Alemanha me aconselhou a ir para lá, porque era um projeto muito especial e, sobretudo, com pessoas maravilhosas. Sem dúvida, eles são meus pais mediterrâneos.


3- Chegar ao Priorat e querer se desvincular do estilo já abençoado por “San Parker” não deve ter sido tarefa fácil. O que te levou a tomar essa decisão e quais foram os maiores desafios que você enfrentou para realizá-la?
Eu não posso desvincular o vinho da gastronomia e, como grande amante da cozinha mediterrânea, especialmente da italiana, considero que se trata de pratos pouco intervencionados e elaborados com produtos frescos e naturais. Mas, além disso, não é apenas conhecida pelo seu sabor, mas também pelo seu enfoque como uma experiência social e cultural. A gastronomia catalã tem muito em comum com a italiana e, na minha opinião, essa cozinha não funciona com vinhos muito elaborados que roubam o protagonismo e escondem a própria expressão do prato. Acho que no mundo do vinho há muito ego e, seguindo minha filosofia de que o vinho é feito em prol da gastronomia, é preciso se adaptar para conseguir a melhor harmonização. Vinhos fluidos, crocantes e frescos que combinem com o mediterrâneo.

4- Ao receber os cobiçados 100 pontos Parker por Les Manyes 2016, sua aposta por um Priorat sem madeira se consolidou. Como você se sentiu ao receber esse reconhecimento e que impacto teve em sua carreira?
Na verdade, foi bastante impactante, porque passamos de ser vistos como os estranhos a sermos aprovados e, inclusive, reconhecidos a nível nacional e internacional. Na realidade, é uma bênção que te dá força para continuar trabalhando duro sob essa mesma filosofia.


5- Com seu projeto Terroir al Límit no Priorat avançando com sucesso, você se aventurou na denominação vizinha Montsant com Terroir Sense Fronteres. Quais características compartilham e em que se diferencia este segundo projeto do primeiro?
Priorat e Montsant têm em comum a mediterraneidade. Ambas falam por si mesmas deste clima, desta cultura e desta história ancestral. No entanto, cada uma tem sua própria identidade. Priorat, com a licorella e sua uva estrela carignan, nos apresenta uma paisagem potente e muito nobre. Montsant, de solos argilosos e uva garnacha, nos mostra um cenário mais simpático e acessível.


6- Montsant, que muitas vezes é comparado ao irmão mais novo do Priorat, demonstrou ter sua própria identidade e qualidade distintiva. Você acredita que o Montsant pode alcançar o mesmo prestígio e reconhecimento internacional que o Priorat no mundo do vinho?
O mesmo prestígio não acredito, já que o sucesso do Priorat se deve a um conjunto de circunstâncias que coincidiram. Para começar, que pessoas como Pérez, Palacios, Barbier e Glorian se encontrassem em um mesmo lugar não é nada usual. Mas, além disso, o Priorat tem uma paisagem muito potente que o torna único. No entanto, vejo muito futuro para o Montsant porque nos oferece uma paisagem muito mais amigável e com muito mais possibilidades gastronômicas.


7- Em prol da saúde, a tendência atual de consumo se inclina por vinhos com menor graduação alcoólica e menos intervencionistas. Como você vê essa evolução dos gostos e como se adapta a essas mudanças em suas vinícolas?
Na verdade, nosso projeto já cimentou suas bases sob essa filosofia. Há 20 anos apostamos por vinhos elegantes, crocantes, frescos e, sobretudo, gastronômicos, que acompanhem e não mascaram os pratos.


8- Outro tema sempre presente no mundo do vinho é o impacto das mudanças climáticas. Nesse contexto, que futuro você vê para a viticultura no Priorat e no Montsant? Vocês estão fazendo algo em particular para mitigar seus efeitos?
No Priorat o impacto é mais severo do que no Montsant porque é mais seco, com temperaturas mais altas e maior inclinação. Nós, desde o início, apostamos por uma viticultura ecológica, biodinâmica e regenerativa. Mas, além disso, ao longo desses 20 anos apostamos por plantar em altitude (650-800 metros) e voltados para o norte para enfrentar essas adversidades.


9- Sabemos que você é um espírito inquieto e que viaja muito. Não despertou em você a vontade de tentar a sorte em alguma outra região vitivinícola do mundo? Se pudesse escolher, onde gostaria de tentar?
Sicília me tem encantado. Trata-se de uma ilha por onde passaram grandes culturas europeias: vikings, italianos, espanhóis... E essa confluência ao longo dos séculos se reflete tanto em sua cultura quanto em sua gastronomia. Além disso, regiões vitivinícolas que estão se destacando atualmente por sua grande qualidade, como Etna ou Vittoria, são uma maravilha.


10- Em um mundo onde a imediatidade está na ordem do dia, o que você acha que pode ser feito para que as novas gerações abracem a cultura do vinho?
Como em todos os problemas, a solução passa pela educação. A chave para fomentar a cultura do vinho nas novas gerações reside na educação e na integração dessa tradição na vida cotidiana. Para isso, é essencial promover o valor da gastronomia e das experiências compartilhadas ao redor da mesa. Hábitos como desfrutar das refeições em família, abrir uma garrafa de vinho e criar momentos de sobremesa, podem transformar o vinho em uma parte significativa das interações sociais.


11- Para finalizar, poderia nos nomear algum vinho que te surpreendeu agradavelmente nos últimos tempos?
Estas férias na Ligúria (Itália) fomos a um bar de vinhos e descobrimos Lumassina di Bosco de Terrazze Singhie. Gostamos tanto que no dia seguinte fomos visitar a vinícola. Um pequeno projeto com 1 hectare de vinhas velhas no meio da floresta. Muito humilde, mas encantador.