Descobrindo Victoria Pariente
Licenciada em Ciências Químicas e enóloga, Victoria Pariente dirige a vinícola José Pariente na D.O. Rueda e é considerada uma das mulheres mais influentes e elegantes no cenário vinícola mundial, onde se destacou graças aos seus vinhos de verdejo.
Por trás de uma vinícola com nome masculino, em homenagem ao seu pai, sem dúvida há uma mulher, mãe e empreendedora comprometida com o ambiente, a tradição e a inovação, de quem gostaríamos de conhecer um pouco mais.

– Para você, o que é o vinho?
Para mim, o vinho é uma paixão e uma forma de vida.
– Qual é a primeira lembrança que você tem relacionada com o vinho?
A primeira lembrança que tenho relacionada com o vinho é do meu pai, José Pariente, na vinha.
– Vindo de um ambiente vinícola, você sempre soube que queria se dedicar também ao vinho?
Nasci em Rueda e o mundo do vinho fez parte da minha vida desde criança, por isso pode-se dizer que é totalmente vocacional. No entanto, a maturidade e a formação durante anos em enologia acabaram por torná-lo parte fundamental da minha vida e uma das minhas grandes paixões.
– Sua vinícola, José Pariente, leva esse nome em homenagem ao seu pai. Você pode nos contar de que maneira o lembra e qual foi sua influência?
Eu o lembro como um homem muito amável, trabalhador e um grande amante do vinhedo. Uma imagem que sempre tenho em mente é a do meu pai fazendo vinho na nossa pequena vinícola caseira, que ele chamava de “A outra casa”.
– A vinícola José Pariente, hoje reconhecida internacionalmente, é um verdadeiro referencial na elaboração de vinhos e um dos estandartes da Denominação de Origem Rueda, mas como foi o início do projeto há vinte anos, quando você era uma mulher empreendedora, mãe de dois adolescentes? Você se sentiu apoiada? Conseguiu conciliar todos os aspectos que compunham sua vida na época? Quais foram as maiores dificuldades que teve que enfrentar?
Se há algo de que me sinto verdadeiramente orgulhosa é da minha família. Meu marido, Ignacio Prieto, sempre foi um grande apoio para mim, tanto a nível pessoal quanto profissional. Apesar da dificuldade de iniciar um novo projeto sendo mãe e empreendedora, sempre contei com sua ajuda.
Os começos são sempre complicados. Talvez uma das dificuldades que encontrei no início foi encontrar meu espaço em um mundo que, na época, era predominantemente masculino. No entanto, meus colegas masculinos de profissão sempre me deram uma mão quando precisei.
É complicado ser uma mulher empreendedora, com filhos, sem horário fixo e conseguir conciliar todos os aspectos da vida, tanto familiares quanto laborais. Nos primeiros anos de qualquer negócio, você tem que viver, praticamente, por e para ele.
– Perguntamos sobre seu pai e a inspiração que ele gera em você, mas agora gostaríamos que nos falasse sobre seus filhos. De que maneira você acredita que influenciou, como seu pai fez com você, para que eles também decidissem incursionar no mundo do vinho, iniciando seu próprio projeto vinícola “Bodegas Prieto Pariente”?
Partindo do princípio de que a vitivinicultura sempre esteve presente em nossa família, para Ignacio e Martina, assim como para mim, fazer vinho além de um trabalho é uma forma de vida. Sempre foi um dos nossos pilares, tanto a nível profissional quanto pessoal, e isso faz com que desde a infância nos sentíssemos atraídos por esse mundo e nos envolvêssemos nele.
Devo dizer também que, em nenhum momento houve pressão da minha parte, sempre tiveram a liberdade para fazer o que quisessem a nível profissional. Foi a decisão deles. Esta profissão requer paixão, sensibilidade, carinho e tempo, além de um espírito empreendedor que considero característico de nossa família. Na minha opinião, isso também se transmite.
Hoje em dia, eles são os motores de José Pariente e estão em plena construção de Bodegas Prieto Pariente, um projeto próprio apaixonante.
– Agora que a Bodega José Pariente tem um pouco mais de 20 anos e deixou de ser um projeto para se tornar uma realidade de sucesso, como você resumiria esses primeiros 20 anos de vida e como visualiza seu futuro mais próximo?
O resumo desses 20 anos é, sem dúvida, muito trabalho e muita dedicação. Temos ideais empresariais muito claros e o objetivo principal continua sendo o mesmo, manter a qualidade em nossos vinhos e tentar melhorar ano após ano, sem pressões ou modas de mercado, sendo fiéis à filosofia inicial da vinícola.
Quanto ao futuro, embora o visualize um pouco incerto neste momento, devido à pandemia de COVID-19 que, infelizmente, nos tocou viver e que atualmente afeta a maioria dos setores a nível mundial, nossa intenção é não relaxar e continuar trabalhando intensamente. Continuar apostando em um trabalho minucioso de viticultura, continuar investindo em I+D e, sobretudo, continuar criando grandes vinhos.
– Falando com uma mulher empreendedora de sucesso e com reconhecimento inclusive mundial, é inevitável perguntar: de que maneira a visão feminina, neste caso particular, influencia a vitivinicultura? Pode-se dizer que existe outra classe de sensibilidade ou visão que as mulheres podem aportar neste ambiente?
Na minha opinião, a sensibilidade na vitivinicultura não é uma questão de gênero. Há muitos enólogos que trabalham com uma delicadeza digna de admiração. Pessoalmente, considero que é fundamental o cuidado da vinha, da uva, prestar a atenção que ela necessita, assim como mimar os vinhos, dar-lhes tempo e prestar atenção ao mínimo detalhe. Esta forma de trabalhar é algo inato em cada pessoa, independentemente de ser homem ou mulher.
– Sabemos que você não é apenas uma apaixonada pelo vinho, mas também uma mulher comprometida com a proteção do meio ambiente e com a pesquisa, desenvolvimento e inovação de tecnologias aplicáveis à vitivinicultura. Você poderia nos contar de que maneira desenvolve tudo isso em José Pariente? Como consegue que tradição e inovação andem de mãos dadas?
Considero que manter a tradição não está em desacordo com o conhecimento. Em José Pariente, apostamos na viticultura ecológica há anos, sempre investigando de que forma melhorar ou aplicar as técnicas de viticultura conforme as necessidades de cada vinha. Buscamos a raiz e a tradição da variedade Verdejo, mas sempre de mãos dadas com o desenvolvimento da formação.
Nosso objetivo principal é a qualidade e a autenticidade de nossos vinhos e consideramos que, para isso, é necessário um “assemblage” de ambos os conceitos. Nunca haverá conflito entre tradição e inovação, trata-se de adquirir os melhores aspectos de cada uma delas para, ao final, aplicá-los no processo de elaboração de nossos vinhos.
– A variedade verdejo experimentou um boom de popularidade e muitos produtores “embarcaram na onda”. O que José Pariente faz para se diferenciar dos demais?
Temos muito claro nosso objetivo e o que deveria nos diferenciar, e mantivemos isso desde o início: a qualidade. Temos claríssimo o estilo de José Pariente e acredito que é perceptível quando se prova qualquer um de nossos vinhos: a finesse, elegância e tipicidade da variedade com a qual elaboramos.
– Onde reside o segredo do sucesso de José Pariente?
O sucesso sempre reside no trabalho, na constância, na dedicação, na não conformidade e no desejo de continuar avançando e crescendo. A tudo isso, deve-se somar uma pitada de sorte e, como disse anteriormente, ter muito claro de onde viemos e para onde queremos ir.
No nosso caso, sempre tivemos claro que queríamos elaborar vinhos com personalidade, com os quais as pessoas se identificassem e, após prová-los, quisessem repetir e se tornar nossos embaixadores.
E acredito que o sucesso de José Pariente reside neles, no fato de que muitas pessoas nos permitiram entrar em uma pequena parte de suas vidas (entre amigos, com a família, com o parceiro...).
– Você tem algum projeto em mãos do qual possa nos dar um pequeno avanço? Por exemplo, existe a possibilidade de contar com algum espumante de verdejo ou de sauvignon blanc elaborado por José Pariente?
Não temos em mente a elaboração de nenhum espumante na região de Rueda. Tudo o que decidirmos elaborar deve ter certas raízes ou ligação com a região onde decidirmos produzir.
No entanto, temos algumas barricas que recuperamos da pequena vinícola do meu pai e que continuamos envelhecendo ao longo desses anos. Ainda é cedo para dizer algo, mas seria bonito poder oferecê-las ao mercado algum dia.
– Quais são as paixões e/ou hobbies secretos e não tão secretos e, sobretudo, confessáveis de Victoria Pariente além do relacionado com o vinho?
Tenho duas grandes paixões: ler, adoro o gênero de romance, e passear pela praia; e se for em Zahara de los Atunes, nosso pequeno refúgio, melhor ainda.
– Você poderia nos apresentar seu vinho favorito da vinícola?
É difícil escolher um vinho próprio favorito porque, no final, todos são como seus filhos, de certo modo. Mas se tivesse que escolher um em particular neste momento, seria José Pariente Finca Las Comas 2016. É o primeiro vinho que nasceu sob a batuta enológica da minha filha Martina, provém de um vinhedo excepcional plantado em 1910, de solo muito pedregoso (tão característico da nossa região) e elaborado em foudre de carvalho austríaco. Acredito que está em seu momento ótimo de maturidade e consumo.
Eu o beberia em alguma celebração familiar ou com amigos, com alguma refeição à base de peixes grelhados, mariscos ou arrozes e a uma temperatura que não seja extremamente baixa, para deixar sair no nariz os aromas tão complexos que possui.
– Qual foi o último vinho que te emocionou e por quê?
A verdade é que me emociono frequentemente, às vezes até de forma inesperada, com vinhos sem grandes pretensões, mas com autenticidade e personalidade.
Mas se tivesse que destacar um, seria um palo cortado VORS de Bodegas Tradición. Todos os anos organizamos com toda a equipe de José Pariente uma viagem a alguma região vinícola. A última foi a Jerez, e lá pude prová-lo. É um daqueles vinhos com alma e história própria, inimitável e capaz de arrepiar.