Vinhedos que extinguem incêndios
Infelizmente, a cada verão repete-se a mesma cena: montanhas envoltas em fumaça, florestas reduzidas a cinzas e moradores atentos à evolução das chamas. O aumento das temperaturas, a seca e o abandono de muitas áreas rurais transformaram os incêndios florestais em um dos maiores desafios ambientais da Europa.
No entanto, em meio a este cenário desolador, a vinha está demonstrando que pode desempenhar um papel muito mais significativo do que apenas produzir grandes vinhos.
Os vinhedos tornaram-se verdadeiros cortafogos naturais. Sendo terrenos cultivados e mantidos de forma constante, apresentam uma menor acumulação de vegetação seca, o que dificulta o avanço do fogo. Em inúmeros incêndios, essas parcelas têm retardado a propagação das chamas, protegendo florestas, explorações agrícolas e até mesmo núcleos habitados.
Contudo, este trabalho silencioso tem um custo. Quando o fogo atinge as vinhas, os agricultores costumam ser os primeiros prejudicados. Muitas vezes, seus cultivos atuam como barreira contra o incêndio, mas acabam danificados ou destruídos, obrigando os viticultores a enfrentar perdas econômicas significativas enquanto contribuem, sem intenção, para a proteção do território.
Um selo para reconhecer aqueles que cuidam da paisagem
Com o objetivo de reconhecer o papel que alguns cultivos desempenham na prevenção de incêndios florestais, em julho de 2025, o Escritório de Propriedade Intelectual da União Europeia registrou as marcas de certificação Fire Wine Resilient Landscape© e Fire Product Resilient Landscape©. Esses distintivos identificam vinícolas e produtores agrícolas cujas explorações, além de produzir alimentos ou vinho, contribuem para criar paisagens mais resistentes ao fogo.
O selo valoriza uma forma de gestão do território em que a atividade agrícola ajuda a reduzir a continuidade da vegetação combustível e favorece uma paisagem em mosaico, capaz de dificultar a propagação dos grandes incêndios.
Essas certificações são propriedade do Centro de Ciência e Tecnologia Florestal da Catalunha (CTFC) e surgem como uma ferramenta para transferir ao mercado o valor ambiental que determinados cultivos aportam. Seu desenvolvimento é apoiado pelo conhecimento gerado por diversos projetos de pesquisa europeus, entre eles LIFE MIDMACC, que entre 2019 e 2024 demonstrou como a recuperação de vinhedos e outros usos agrícolas em áreas de média montanha pode atuar como cortafogo natural e, ao mesmo tempo, contribuir para revitalizar o meio rural.
O mosaico que dificulta o avanço do fogo
Um dos melhores exemplos deste modelo encontra-se na propriedade Mas Marés, de Espelt Viticultors, situada nos arredores do Parque Natural do Cap de Creus. Lá, a plantação de vinhedo não foi concebida apenas com fins vitivinícolas, mas também como parte de um projeto integral de gestão da paisagem.
Desde o início das plantações em 2003, o design da propriedade foi realizado em conjunto com os responsáveis do parque natural para criar um mosaico agroflorestal capaz de favorecer a biodiversidade e, ao mesmo tempo, reduzir o risco de incêndios.
O terreno é organizado em três espaços diferenciados. Os carvalhais conservam um dos ecossistemas mais ricos em biodiversidade da região. Os pastos permanecem abertos graças ao pastoreio do gado, que elimina a vegetação combustível de forma natural. E ao redor dos vinhedos estendem-se áreas de estepe, que além de atuar como faixa de proteção oferecem um habitat ideal para espécies como o peneireiro-das-torres, atualmente objeto de programas de recuperação.
Muito mais do que produzir vinho
A viticultura está demonstrando que pode oferecer benefícios que vão muito além da elaboração de vinhos. Manter os cultivos ativos significa conservar a paisagem, gerar biodiversidade, fixar população no meio rural e reduzir o risco de incêndios de grande magnitude.
Em um contexto em que os incêndios são cada vez mais intensos e difíceis de controlar, apoiar aqueles que trabalham a terra pode se tornar uma das ferramentas mais eficazes para proteger o território. Porque, em algumas ocasiões, a melhor defesa contra um incêndio não começa quando um hidroavião decola, mas muito antes, entre as fileiras de um vinhedo cuidadosamente cultivado.