Vinho do Porto, a doce recompensa da paciência
Do vinho de Oporto diz-se que é o mais britânico que existe. Praticamente foi feito, como se de um fato à medida se tratasse, para encaixar e ter sucesso no gosto inglês. A verdade é que os vinhos de Oporto são a porta de entrada para o vasto mundo vinícola que Portugal nos oferece. Este pequeno grande país que talvez seja um dos que contam com mais variedades autóctones vinificáveis, cerca de 500!
Vamos então conhecer um pouco mais sobre estes vinhos que posicionaram o país luso no topo da vitivinicultura mundial.

Que tal se para nos situarmos começarmos com um pouco de história?
A cidade de Oporto é considerada a “capital do norte” de Portugal. É a segunda cidade mais importante depois de Lisboa e seu nome, assim como o de seu famoso vinho, significa “O Porto” devido talvez à sua localização geográfica. É a porta portuguesa do norte voltada para o Atlântico.
O vinho de Oporto, vinho do Porto em português, é um vinho fortificado ou generoso, ou seja, um vinho ao qual durante seu processo de elaboração se adiciona álcool, o que aumenta sua graduação alcoólica e lhe confere textura, doçura e sabores mais robustos, permitindo uma extraordinária longevidade. Todos esses vinhos têm açúcar residual, por isso muitos são doces e outros extremamente doces.
Os vinhos fortificados surgiram no século XVI como resultado da busca por métodos para preservar o vinho das condições adversas pelas quais tinha que passar na época durante seu transporte, para que pudesse chegar em condições adequadas para consumo aos diferentes países para onde viajava.
Os ingleses sempre preferiram o vinho francês, mas em 1678 a importação de vinhos da França para o Reino Unido foi proibida. Em 1703, assinaram o Tratado de Methuen com Portugal, o que aumentou o comércio entre os dois países. Naquela época, os vinhos portugueses não tinham estrutura para suportar uma viagem marítima para o Reino Unido, além de seu sabor ácido e leve ser pouco atraente para o consumidor inglês.
Diz-se que dois comerciantes ingleses que viajaram a Portugal para comprar vinhos visitaram um mosteiro localizado no alto do Vale do Douro, onde provaram um vinho tinto ligeiramente doce que os surpreendeu e com o qual vislumbraram sucesso entre seus consumidores. O Abade do Mosteiro confessou-lhes seu segredo: adicionava brandy ao vinho antes de terminar sua fermentação.
O sucesso deste “novo” vinho na Grã-Bretanha foi tal que eles próprios estabeleceram em Portugal as primeiras casas vinícolas. Ainda hoje, muitos dos produtores têm nomes de origem inglesa.
E como é o vinho de Oporto?
Já mencionamos que é um vinho ao qual se adiciona álcool para interromper a fermentação antes que esta termine naturalmente, processo do qual se obtêm vinhos com teor alcoólico que varia de 17º a 25º e que, de acordo com sua quantidade de açúcar residual, podem ser doces ou muito doces. Também se caracterizam por sua intensidade aromática e pelas propriedades que adquirem de acordo com sua maturação, tema que abordaremos mais adiante.
Pode ser que o vinho de Oporto seja um dos vinhos mais longevos do mundo.
Falamos também que Portugal é um dos países com maior quantidade de castas autóctones.
O vinho de Oporto é elaborado a partir de coupages que podem conter uma grande variedade de uvas diferentes. Estão autorizadas mais de 80, entre as quais se destacam a Malvasia Dourada, Malvasia Fina, Gouveio e Rabigato para os vinhos de Oporto brancos que, ao contrário dos tintos, são produzidos em muito pouca quantidade; e entre as tintas predominam a Tinta Roriz, Tinta Barroca, Tinta Franca, Touriga Nacional e Tinta Cão para o restante dos vinhos de Oporto.
O curioso é que estas vinhas não crescem realmente na cidade de Oporto, mas sim na Região Vitícola do Alto Douro, que é uma zona do nordeste de Portugal com mais de 26 mil hectares e que foi classificada pela Unesco como Patrimônio da Humanidade, onde há séculos se realizam vindimas heroicas nas íngremes encostas de xisto, granito e ardósia que vigiam o curso do Douro e onde as vistas são um dos cenários mais espetaculares da viticultura internacional.
Esta região foi a primeira do mundo a ser delimitada oficialmente em 1756 e é aqui que se localizam a maioria das Quintas ou propriedades produtoras de Portos.
A segunda cidade mais conhecida e relacionada com o vinho de Oporto é Vila Nova de Gaia, situada em frente a Oporto, do outro lado do Douro. É aqui que estão localizadas muitas das grandes adegas ou ármazens e exportadoras de vinho de Oporto e onde inclusive se realizava a vinificação das uvas que vinham do Alto Douro. Hoje em dia, muitos produtores o fazem diretamente nas Quintas, perto dos vinhedos.
E como se elabora o vinho de Oporto?
Após a vindima, os cachos são transportados para as adegas onde se realiza a tradicional pisa da uva, que para os vinhos de Oporto é toda uma cerimônia. Os cachos, esmagados ou não, são vertidos em uma espécie de cubas de granito conhecidas como lagares, onde um grupo de trabalhadores pisa as uvas durante 12 horas para extrair cor e taninos, podendo intercalar períodos de pisa com períodos de dança. Este método oferece uma maneira eficiente e menos violenta de obter o mosto. Atualmente, muitas Quintas ainda utilizam este método para a elaboração de seus vinhos de Oporto de alta gama.
Outras adegas substituíram a pisa tradicional pelo bazuqueio mecanizado.
O mosto obtido é deixado a fermentar e é adicionada uma parte de espirituoso, que deve ter uma base de uva, para quatro de vinho no momento exato para obter a quantidade de açúcar residual desejável no produto final. Esta adição de álcool mata as leveduras e interrompe a fermentação. É então que o vinho é levado a amadurecer em barricas para evitar que o elevado teor alcoólico aumente a presença de taninos mais potentes.
Quantos estilos de vinhos de Oporto podemos encontrar?
Os mais conhecidos são os seguintes:
Oporto Branco ou White Port é um vinho de Oporto jovem que se elabora com uvas brancas e que se classifica pela sua quantidade de açúcar residual (de “quase secos” a doces). São vinhos sem safra, ou seja, um blend de vinhos de diferentes safras que amadurecem em madeira por uma média de três anos antes de serem comercializados prontos para consumo.
Oporto Ruby ou Ruby Port é um vinho de Oporto jovem, sem safra e de uma bela cor vermelho-rubi, daí seu nome. Costumam ser vinhos encorpados e cheios de fruta, com o álcool bem integrado. Envelhecem em madeira por dois ou três anos antes de serem engarrafados para venda prontos para consumo.
Oporto Tawny ou Tawny Port é um vinho de Oporto cujo estilo é o que costuma ter mais sucesso e é um dos mais conhecidos. Seu nome “Tawny” também vem de sua cor “leonada”, uma espécie de marrom ambarino que é mais ou menos intenso dependendo de seu amadurecimento. Oferece aromas que lembram nozes, café, chocolate ou caramelo. Os melhores são os Oportos Tawny de Reserva, que podem passar uma média de sete anos amadurecendo em barricas antes de serem engarrafados.
Late Bottled Vintage Port (LBV) é um vinho de Oporto de uma colheita específica selecionada por sua qualidade e que amadurece em barrica por uma média de quatro a seis anos. Digamos que é engarrafado mais tarde (Late Bottled) que um Oporto Ruby. Os de estilo mais moderno são filtrados antes de engarrafar, por isso estão prontos para consumo sem necessidade de decantação. Oferecem uma fruta mais intensa que os Ruby e podem ser guardados até duas semanas após abertos.
Oporto Colheita ou Colheita Port é um estilo de vinho de Oporto muito popular em Portugal. Provém de colheitas individuais que amadurecem em barrica por uma média de 8 anos. São Oportos Tawny muito finos e antigos, cujas etiquetas mencionam que foram amadurecidos em barril, a colheita e a data de engarrafamento.
Oporto Vintage ou Vintage Port é um estilo de vinho de Oporto que está entre os vinhos mais longevos a nível mundial. É elaborado a partir de colheitas excepcionais de um ano em particular que provêm dos melhores vinhedos. Na sua juventude, um Oporto Vintage é complexo, rico e tânico. É engarrafado quando tem dois anos. Ao contrário dos Colheita ou dos Oportos Late Bottled Vintage, os Oportos Vintage amadurecem em garrafa, são de maturação lenta e podem atingir seu auge talvez a partir dos 20 anos ou mais, tendo uma longa vida que pode até mesmo superar os cem anos.
Os vinhos de Oporto são, sem dúvida, um tesouro mundial. Jóias jovens ou longevas que encerram história, caráter e personalidade, todo um prêmio à paciência. Uma doce maneira de se aproximar da vitivinicultura portuguesa, tão rica e diversa, e por sorte com exemplos ainda ao alcance de todos.