Burgenland: A revolução dos tintos
Se falarmos da Áustria, rapidamente pensamos em vinhos brancos e secos, principalmente da variedade grüner veltliner. Mas também em vinhos doces de sobremesa gerados pela botrytis ou podridão nobre. No entanto, uma nova geração de produtores está revolucionando o mundo vinícola. Concretamente em Burgenland, a região mais quente do país, onde as uvas tintas são as principais protagonistas na elaboração de vinhos sutis, pouco alcoólicos e muito minerais.

Se você se considera um winelover que quer estar atualizado, não pode deixar passar esses vinhos de Burgenland.
O país do sol
Situada no limite com a fronteira húngara, Burgenland é uma região curiosamente conhecida como «o país do sol» por ser a zona mais quente do país e desfrutar de 300 dias de sol por ano. Um clima ideal para o cultivo de uma ampla variedade de uvas brancas como weissburgunder (pinot blanc), grüner veltliner, neuburger, muskateller (muscat de grão pequeno), muscat ottonel e sämling 88. Mas também, para o cultivo de uvas tintas como blaufränkisch, zweigelt, saint laurent, pinot noir e, inclusive, merlot e cabernet sauvignon. Considerando que já em 2009 a produção de uvas tintas superou a das brancas, o certo é que esta região vinícola está vivendo uma verdadeira revolução liderada por produtores inovadores que defendem as variedades autóctones, as elaborações pouco intervencionistas e a máxima expressão do terroir.
Do ponto de vista climático e geográfico, o principal responsável por esta região vinícola é o lago Neusiedl. Localizado em um dos parques nacionais mais importantes da Áustria, declarado Patrimônio Mundial Cultural: o Parque Nacional Neusiedler See/Seewinkel, trata-se de um dos maiores lagos da Europa e o único estepário do continente. Sua influência sobre a vinha é enorme. A grande massa de água de 32 quilômetros de comprimento e um metro de profundidade, não só atenua as mudanças bruscas de temperatura, como também acumula calor durante o verão e prolonga as temperaturas quentes no outono, liberando o calor em contínuas neblinas e favorecendo a maturação ótima da uva.
Nord-Mitter-Süd do Neusiedl
Tendo como referência o Neusiedl, a região de Burgenland pode ser dividida em três zonas vinícolas distintas. Principalmente, trata-se de diferenças geológicas que proporcionam à uva uma identidade particular:
Nordburgenland
Os melhores vinhos são os que se elaboram ao redor do lago, aos pés das montanhas de Leitha, no extremo norte. Trata-se de terrenos um pouco mais altos compostos de calcário e xisto. Daqui nascem os vinhos DAC Leithaberg, a denominação mais estrita de todo o país e a que mais se atenta à composição dos solos. Seus vinhos são reconhecidos por sua intensidade e mineralidade.
Mittelburgenland
Logo ao sul do lago Neusiedl encontra-se um núcleo muito propício para a produção de vinhos tintos. A rainha por excelência é a variedade blaufränkisch que, safra após safra, consegue uma versão mais sofisticada e, sobretudo, mais intensa. Sua acidez relativamente elevada em equilíbrio com o calor da zona, levou-a a redescobrir-se entre os produtores e atualmente uma em cada duas vinhas está cultivada com esta variedade.
Südburgenland
Por último, muito ao sul do lago, em uma região vinícola muito mais difusa, também se cultiva a variedade blaufränkisch. No entanto, seus vinhos desfrutam de um caráter mineral especiado distinto devido aos solos com alto teor de ferro. A esta zona pertencem os vinhos da DAC Eisenberg e, embora ainda esteja se delineando, uma nova geração de jovens viticultores está ganhando força.
Novos ares: Grupo Pannobile
Sendo Burgenland uma região de grande tradição vitivinícola, muitos são os produtores que quiseram sair de modas ou rótulos em defesa de suas raízes. Fruto dessa luta nasce em 1994 Pannobile, uma associação de vinicultores que reage contra a globalização vivida na Áustria em meados dos anos 80. Sob o lema «Nove vinicultores, uma ideia» reúnem-se na localidade de Gols para defender o caráter único do terroir, as variedades locais da região e prestando especial atenção à redução extrema do rendimento e ao envelhecimento suave em barricas de madeira. Como resultado, obtêm-se vinhos de estilo Pannobile que refletem a variedade, o solo e o microclima dos lugares próximos a Gols.
5 vinhos tintos de Burgenland que você vai adorar
Agora que já ouviu falar da revolução dos tintos na região vinícola de Burgenland, só falta prová-los. Aqui propomos 5 sugestões para estar atualizado.
1- Heinrich Blaufränkisch Leithaberg DAC 2017
Proveniente da denominação mais estrita da Áustria (Leithaberg DAC), este vinho é um verdadeiro hino ao terroir. Gernot e Heike Heinrich, enólogos associados a Pannobile, elaboram um vinho tinto intenso, vivo e mineral sob preceitos ecológicos e biodinâmicos.
2- Gut Oggau Rot 2016
Divertida e das mais originais é a coleção de vinhos Gut Oggau. Seus criadores, Stephanie e Eduard Tscheppe, souberam elaborar cada um de seus vinhos com uma personalidade única. Daí que cada uma de suas produções adote um personagem fictício da família Oggau. No caso de Rot, trata-se de um vinho tinto com barrica, intenso e fresco.
3- Judith Beck Blaufränkisch 2018
Membro também de Pannobile, Judith Beck dirige a vinícola familiar em Gols sob preceitos 100% biodinâmicos. Elaborado com a variedade tinta estrela da região, a blaufränkisch, este vinho mostra a vivacidade e frescor da zona com a delicadeza e leveza de sua enóloga.
4- Puszta Libre! 2019
Claus Preisinger, o enólogo mais jovem da associação Pannobile, é a grande nova promessa dos produtores austríacos. Com este vinho, não só faz uma homenagem aos elaboradores clássicos, como também apresenta uma embalagem das mais originais, inspirando-se nos refrigerantes de toda a vida.
5- Meinklang Konkret Rot 2014
Fruto de uma fazenda familiar onde geração após geração se transmitiu o amor pela terra, plantas e animais, Meinklang Konkret Rot é um vinho biodinâmico certificado pela Demeter, leve, profundo e muito elegante.
Uma região de atualidade vibrante que sem dúvida convidamos você a conhecer na Decántalo. E é que provar não ocupa lugar.