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Descobrindo Chapoutier, uma das famílias vinícolas francesas mais célebres

16/04/2025 Entrevistas
Descobrindo Chapoutier, uma das famílias vinícolas francesas mais célebres

É bastante comum, especialmente na França, que em uma propriedade vitivinícola toda a família trabalhe junta e que o conhecimento seja transmitido de geração em geração. Este legado, que em muitos casos é inestimável, adquire uma dimensão especial no caso da família Chapoutier.

Michel Chapoutier, responsável pela adega mais importante do Hermitage, na região de Côte du Rhône, assim como de outros vinhedos nas melhores zonas desta e de outras denominações prestigiadas, não é apenas um dos viticultores mais reconhecidos da França; ele também se destaca por sua abordagem visionária. Um talento e audácia que soube transmitir à sua filha Mathilde, que, como digna herdeira, não apenas continua o legado familiar na propriedade, mas também começou a trilhar seu próprio caminho com seu projeto pessoal. Uma grande equipe que, tanto juntos quanto separadamente, o mundo do vinho não seria tão enriquecedor sem eles.


1- Mathilde, sendo parte integrante de uma das famílias mais célebres produtoras de vinho na França, o vinho está no seu DNA. No entanto, você sempre soube que queria se dedicar ao mundo do vinho? Quando teve certeza disso?
Mathilde: Campeã da França em tiro com carabina, estava no início de uma promissora carreira esportiva, mas retornar às minhas raízes me levou a mergulhar neste mundo, sentindo um amor à primeira vista e desenvolvendo uma paixão pelos vinhedos.


2- Trabalhar em família, como tudo, tem seus prós e contras. Quais vantagens e desvantagens você encontra ao trabalhar lado a lado com seu pai?
Mathilde: Meu pai, Michel, é a assinatura dos vinhos da Maison, o embaixador da marca. Minha mãe cuida do marketing, meu irmão Maxime da técnica e dos destilados, e eu do desenvolvimento comercial. Nos complementamos cada um com sua área de especialização, e funciona muito bem assim. Em família, as coisas são ditas diretamente, todos contribuem, e é um ambiente muito dinâmico. Essa é a força da nossa Maison hoje em dia.


3- Uma das revoluções que os Chapoutier realizaram é a aposta nas técnicas biodinâmicas no cultivo da videira em todos os seus vinhedos. Michel, você acredita que, como pioneiros nesse tipo de viticultura, influenciaram a mudança de mentalidade de outras adegas? Como essa abordagem evoluiu desde que a implementaram?
Michel: Não tenho a pretensão de ter influenciado ninguém. Penso que o bom senso dos viticultores os levou naturalmente a uma agrobiologia que passa pela agricultura orgânica e, em algumas ocasiões, pela biodinâmica. Se queremos defender a noção de "terroir", o solo deve estar vivo. Não se trata de influência, mas da sensibilidade de um viticultor apaixonado.


4- Considerando que tradição e inovação costumam ser conceitos difíceis de equilibrar, como encontram o ponto médio entre respeitar o legado familiar e explorar novas técnicas ou estilos?
Mathilde: O equilíbrio entre tradição e inovação está no coração da nossa abordagem. Respeitar o legado familiar significa honrar o saber-fazer e os valores transmitidos de geração em geração. Implica uma compreensão profunda do "terroir" e atenção meticulosa aos detalhes. No entanto, a inovação é fundamental para evoluir e responder às expectativas mutáveis dos amantes do vinho. Essa harmonia entre tradição e modernidade nos permite criar vinhos autênticos e inovadores.


5- A adega Chapoutier é conhecida por seus vinhos excepcionais e por uma filosofia que vai além da elaboração. Aspectos que ajudaram a alcançar os desejados 100 pontos Parker em muitos dos seus vinhos. Há um antes e um depois de chegar ao topo?
Michel: Fui o viticultor mais jovem a obter um 100 com a safra de 1989. Naquela época, Robert Parker tinha uma posição dominante, o que causava especulação com os vinhos classificados com 100 pontos. Para evitar isso, decidimos vendê-los em "primeur", permitindo aos compradores escolher sem a influência dos críticos. Um crítico de vinho deveria ser como um de cinema ou literatura: buscamos um com gostos semelhantes aos nossos e confiamos em suas recomendações. Até pensei em um projeto de degustações às cegas para ajudar os consumidores a identificar seu crítico ideal de acordo com suas preferências.


6- No seu caso, Mathilde, você começou um projeto pessoal focado nos rosés provençais. O que a levou a decidir por esse tipo de vinho e que valores ou características você diria que traz a esses rosés que os tornam únicos?
Mathilde: Adoro explorar vinhedos franceses e estrangeiros para criar uma gama que combine convivência, simplicidade e prazer. Minha abordagem é desmistificar o vinho e oferecer uma leitura simples do gosto. Para mim, o vinho é puro deleite. Através de encontros, as denominações e os "terroirs" se revelam em sua tipicidade. Na Provença, podemos criar vinhos de "terroir", de descoberta. A ideia é oferecer vinhos para desfrutar, compartilhando momentos entre amigos e apreciando a tipicidade de uma denominação a preços acessíveis.


7- A mudança climática é um dos maiores desafios para a viticultura atual e futura. Como a mudança climática afetou seus vinhedos e a elaboração dos seus vinhos? Que medidas estão tomando para se adaptar a essas novas condições e manter a qualidade dos vinhos Chapoutier?
Michel: É preciso trabalhar com atenção e seguir os princípios da epigenética. A vantagem da biodinâmica é que permite trabalhar ao ritmo do clima. A resposta natural à mudança climática é a adaptação da planta através de seu princípio epigenético.


8- Cada vez mais consumidores mostram interesse por vinhos sustentáveis, naturais e com técnicas de elaboração menos intervencionistas. Que aspectos você valoriza ao criar vinhos que possam atrair as novas gerações?
Mathilde: Estamos profundamente comprometidos com uma viticultura sustentável e respeitosa com o meio ambiente, algo que conecta especialmente com as novas gerações. Por exemplo, lançamos "Rouge Clair" no ano passado, um vinho fresco e leve que pode ser servido frio, com uma rolha ecológica e um rótulo interativo. Combina inovação e tradição para responder às expectativas dos consumidores jovens.

9- Por último, poderia compartilhar conosco o nome de algum vinho que recentemente a tenha cativado e por quê?
Michel: Vega Sicilia 1965, a safra da minha esposa.
Mathilde: Os nerello mascalese de Terre Nere, por sua frescura, finesse e mineralidade. Um vinho elegante de "terroirs" de altitude, tudo o que adoro.