Vinho clássico vs vinho contemporâneo
Clássico e moderno. Dois termos frequentemente utilizados nas descrições de um vinho. Diferenciação de estilos, como se fosse um dérbi. E você, de qual lado está?
Contamos-te neste vídeo:
Esses termos ganharam popularidade no mundo do vinho espanhol quando várias vinícolas riojanas, como Remírez de Ganuza, Contino ou Artadi, nos anos 90, lançaram no mercado uma gama de vinhos com um perfil pouco visto na região. O potencial aromático e o teor alcoólico aumentaram, e os taninos se tornaram mais agradáveis ao paladar. Foi um sucesso estrondoso; os críticos não paravam de exaltar suas virtudes, e os mercados, especialmente o anglo-saxão, alemão e os países nórdicos, estavam entusiasmados com esse novo perfil de La Rioja. Tudo eram elogios a essa nova maneira de elaborar, e muitas vinícolas começaram a incorporar uma nova gama desse estilo chamado de “autor”. Foi uma revolução completa para muitas vinícolas que seguiam elaborando da mesma forma desde 1852, ano em que Luciano Murrieta, Marquês de Murrieta, engarrafou o primeiro vinho fino de La Rioja.
Esse dilema sempre existiu no “velho mundo” europeu, onde já havia uma tradição vitivinícola muito importante desde a época romana. Piemonte e Toscana nos anos 70, Borgonha e quase todas as regiões de renome histórico foram tentadas pelas novas inquietações da indústria vitivinícola e dos enólogos, que cada vez mais aprofundam-se em aspectos teóricos da viticultura, química, biologia e novas técnicas de vinificação.
O estilo clássico de elaboração provém da tradição, onde se fundem os conhecimentos adquiridos em cada região com os estudos e viagens realizados. As diferentes maneiras de cultivar a multiplicidade de variedades de uva, com suas variáveis na hora de estabilizar os vinhos e criar os recipientes adequados para isso (barris, fudres, tanques de cimento, ânforas...), fizeram com que cada região tenha sua maneira e estilo típico de elaborar os vinhos. Por exemplo, vinícolas como Viña Tondonia ou Rioja Alta mantiveram-se fiéis ao seu estilo de elaboração, com vinhos de marcado estilo clássico como Viña Tondonia Reserva ou Rioja Alta 904 Gran Reserva.
Em linhas gerais, existem vários fatores que homogeneízam um “vinho moderno”. No vinhedo, as principais características têm sido os clones de baixo rendimento e uma maior exposição foliar para obter uma maior concentração de açúcares e polifenóis na uva. Isso, por sua vez, criou um problema, pois a acidez dos vinhos diminuiu e seu poder de envelhecimento também. Quanto à elaboração, as principais mudanças foram:
– Tempo de fermentação: as fermentações devem ser feitas de maneira controlada, rápida e limpa.
– Tanques de fermentação: Para controlar a fermentação, foram criados tanques de aço inoxidável para controlar todos os parâmetros tanto de fermentação quanto higiênicos.
– Extrações: uma maceração curta, mas com muita extração para obter mais cor e matéria do vinho.
– Métodos de envelhecimento: O barril de 225 litros de carvalho novo, seja francês ou americano, é primordial para elaborar um vinho com essas características. Além disso, a fermentação malolática deve ser realizada nesses barris, para que a madeira e o toque láctico fiquem mais marcados.
Remírez de Ganuza Reserva ou Torre Muga são dois claros exemplos de vinhos de corte moderno de La Rioja:
As conclusões são bastante ambíguas, pois cada um tem seus gostos e preferências. Mas acreditamos que a modernização dos vinhos colocou em risco antigas práticas culturais na elaboração e uma certa homogeneização dos aromas e sabores. Também devemos dizer que dentro de 5 anos falaremos de vinhos modernos completamente opostos, com pouca cor, aromas/sabores mais sutis e menos alcoólicos, já que o mercado está demandando vinhos com esse perfil.
Esses estilos, no final das contas, são modas; o que não deve ser uma moda e o que deve ser preservado é o saber fazer de cada região, o trabalho com as variedades de uva autóctones que existem em cada uma delas e o respeito pelo meio ambiente e o entorno.