Vinhos Naturais

Estamos de volta com um dos termos mais ambíguos e difíceis de definir no mundo do vinho. Preparem-se, pois a discussão é intensa!
O que é um vinho natural? Se formos rigorosos, é quase impossível que exista um vinho natural, já que desde o início o processo de transformar a uva em vinho é condicionado pela intervenção humana; portanto, o termo utilizado para rotular este tipo de vinhos gera um longo debate. Por outro lado, o que é certo é que existem diferentes e diversas técnicas de vinificação que permitem aos viticultores atuar da maneira mais natural possível. Nesse sentido, o que prevalece na elaboração deste tipo de vinhos é a filosofia por trás do viticultor.
O respeito ao meio ambiente e à artesania são determinantes no conceito de “vinho natural”. Para isso, voltam a ser utilizados métodos tradicionais de vinificação, como não usar nenhum tipo de produto ou fertilizante sintético no cultivo e não utilizar produtos enológicos na elaboração. De fato, o movimento surgiu da necessidade de recuperar os solos e a biodiversidade no vinhedo, já que após anos de intensa industrialização, os campos começaram a se deteriorar e perder qualidade.
A região onde essa pequena revolução começou foi Beaujolais, fortemente influenciada pela industrialização do vinhedo e da enologia moderna. Lá, Jules Chauvet (1907-1989), estudioso de química e biologia e um grande degustador, começou a elaborar vinhos sem nenhum tipo de produto sintético. Seus estudos, desde muito jovem, na universidade de Lyon, basearam-se em analisar os diferentes tipos de leveduras e como estas se comportavam no vinho. Os resultados que obteve estabeleceram uma relação direta entre o cultivo orgânico, o solo vivo e a alta variedade de leveduras indígenas e o amplo espectro de aromas que podia transportar ao vinho, ou seja, o verdadeiro terroir da região. Também descobriu que ao introduzir Sulfuroso (que palavra acabo de mencionar) na adega antes da fermentação, as leveduras indígenas morriam, fazendo com que o vinho perdesse tipicidade. Também analisou diferentes tipos de fermentações como a maceração carbônica e a fermentação malolática. Chauvet incorporou esse conhecimento à elaboração do vinho familiar, produzindo novamente vinho natural.
A partir dessas investigações, várias pessoas começaram a se interessar por sua maneira de cultivar e vinificar. Um deles, seu próprio vizinho, Marcel Lapierre, que após várias colheitas realizadas segundo seus estudos de enologia, em 1980, juntou-se ao movimento e foi um fiel aprendiz dos ensinamentos do mestre Chauvet. A esses também se juntou Pierre Overnoy, que deu um passo além em 1984 e começou a vinificar sem adicionar nenhum tipo de produto enológico. Em outras regiões como Rhône, Loire e Languedoc, cada vez mais produtores se uniram a essa longa lista. Até hoje, onde, na França, existem inúmeras feiras, bistrôs de vinhos e pessoas fiéis a este tipo de vinhos.
Na Espanha, este movimento tem cada vez mais adeptos, embora, até hoje, ainda seja uma tendência jovem. Começou por volta do ano 2007, quando vários produtores, inspirados por seus vizinhos franceses, adotaram essa maneira de elaborar. Laureano Serres, na Terra Alta, Joan Ramón Escoda, na Conca de Barbera e Manuel Valenzuela (Barranco Oscuro), nas Alpujarras granadinas, empreenderam a jornada pelo deserto, defendendo os vinhos naturais perante o setor vitivinícola tradicional.
Cada vez mais produtores espanhóis estão dando o salto para elaborar de maneira natural. O vinhedo é cultivado mediante técnicas ecológicas e os processos são melhor controlados para a elaboração sem aditivos. Estamos em pleno processo de aprendizado, não é uma ciência infusa, mas que requer anos de atenção, análise e intuição. De ouvir e de plasmar.
Estamos, portanto, atravessando uma época interessante e bonita no mundo do vinho. Este movimento abalou os alicerces da agricultura e enologia moderna, recuperando e revalorizando antigas tradições, combinando-as com novos conhecimentos e metodologias. Outras cores, outros aromas e outros sabores podem ser vistos e sentidos nos vinhos naturais.