Manzanilla, a joia de Sanlúcar
…A Manzanilla é o meu vinhoporque é alegre, e é boa
e porque -amável sereia-seu canto encanta o caminho…
Antonio Machado

Já ouviu falar da Manzanilla? Não estamos nos referindo à famosa infusão de flores de camomila que, certamente, é a primeira coisa que nos vem à mente, estamos falando deste complexo e refrescante vinho andaluz que possui uma personalidade ímpar e que consegue encantar tanto locais quanto estrangeiros.
Mas, o que a torna tão especial? Primeiramente, façamos um “reinício” mental, pois a Manzanilla, apesar de ser um vinho branco e seco, não se assemelha em nada aos que comumente conhecemos como tais. Para começar a apreciá-la e desfrutá-la, precisamos situá-la em um mundo à parte, um mundo que nada tem a ver com os vinhos brancos aos quais estamos acostumados.
Esta “senhorita entre os vinhos generosos” é elaborada com uvas Palomino, que crescem em vinhedos de horizontes abertos e ligeiramente ondulados cobertos de albariza, o característico solo do Marco de Jerez, composto por margas moles ricas em carbonato de cálcio e sílica, que nos meses secos resulta deslumbrantemente branco à vista.
O vinho base obtido dessas uvas é fortificado com álcool vínico até alcançar 15º e envelhecido sob “velo de flor”, processo também conhecido como crianza biológica. Aí reside uma parte do milagre.
Mas a que nos referimos quando falamos de velo flor?
É uma maneira preciosa e poética de chamar essa camada esbranquiçada de leveduras espontâneas que se forma sobre a superfície do vinho e que o isola do ar, consome seu álcool e lhe fornece nutrientes, dotando-o de características organolépticas que não se encontram em outros vinhos.
A outra parte do milagre é proporcionada pelo entorno, então vamos nos situar um pouco e descobrir seu segredo.
A Manzanilla é elaborada exclusivamente nas adegas de Sanlúcar de Barrameda, cidade andaluza que conta com 320 dias de sol por ano e que está situada na foz do rio Guadalquivir, que é um limite natural ao norte de Sanlúcar, e que faz fronteira com as Marismas de Doñana, uma grande extensão de planície sem relevo.
Um dado a mais. Os ventos de Ponente que traz consigo o Oceano Atlântico, tão próximo à cidade, proporcionam às adegas de Sanlúcar sua umidade e salinidade.
Essa combinação perfeita de temperaturas amenas e alta umidade permite o desenvolvimento de um velo flor muito particular que permanece o ano todo sobre os vinhos e que confere à Manzanilla sua personalidade inigualável, mais sutil que a de seu irmão o Fino, com quem compartilha o processo de elaboração.
E como é a Manzanilla? Já escrevia o poeta Antonio Machado,
…É um poema divino
que na sal e no sol se banha…
A Manzanilla é um vinho pungente e delicado que nos lembra o aroma de maçãs verdes e flores de camomila, por isso há quem diga que daí vem seu nome.
Também possui notas de amêndoas e lembranças de padaria. Quando a prova, é seca, surpreende por sua diferença com qualquer outro vinho branco. Encontramos certo amargor e uma justa acidez que produz frescor e aquele sutil toque salino que a caracteriza e que a torna tão versátil para combinar com todos aqueles pratos que vêm do mar.
Deve ser consumida fresquinha, entre 6º e 8º estará perfeita. Como com as pessoas, convide-a para o aperitivo para conhecê-la melhor, pois se dá maravilhosamente bem com o presunto ibérico, com as azeitonas ou os salgados e obviamente com os pratos tradicionais andaluzes como o salmorejo. Verá como cativa até que, pouco a pouco, você se apaixona por ela!
Então, leve-a para dar uma volta pelo mundo. Experimente-a com sushi, guacamole ou ceviches e talvez nesse processo de conhecimento você encontre outras variedades de Manzanillas: a Manzanilla en Rama, que é engarrafada sem filtrar; e a Manzanilla Pasada, que tem uma cor mais intensa e é mais complexa pois permanece mais tempo de envelhecimento sob o velo flor. Todas elas, opções maravilhosas.
A seguir, deixamos algumas sugestões para que você possa comprovar por que a Manzanilla é um vinho irrepetível e tão especial e, se tiver a oportunidade, nada melhor do que conhecê-la em seu ambiente. Visite a cidade de Sanlúcar de Barrameda, suas adegas, seus bares e tabancos, nada melhor e mais divertido para adentrar no maravilhoso mundo dos vinhos de Jerez.
Manzanilla La Guita: Uma Manzanilla ideal para iniciar-se no mundo dos vinhos generosos. Com 4 anos de envelhecimento, aromática e fresca, e com uma relação qualidade-preço imbatível. Recentemente obteve 94 pontos do renomado crítico de vinhos norte-americano James Suckling.
Manzanilla Papirusa Lustau: Papirusa significa “bela e elegante”. Era o nome da boneca que, nos anos 40, Emilio Lustau presenteou à filha do primeiro gerente de Bodegas Lustau. Uma Manzanilla com 5 anos de envelhecimento e que faz jus ao seu nome. É bela e elegante.
Manzanilla La Gitana, de Bodegas Hidalgo. Uma Manzanilla elaborada por uma grande adega e que provém de um dos pagos com maior influência atlântica. Com 6 anos de envelhecimento.
La Bota de Manzanilla Pasada Capataz Cabo 90 de Equipo Navazos. Uma Manzanilla a outro nível. Com aproximadamente 14 anos de envelhecimento, é capaz de acompanhar pratos mais complexos, desde arrozes marinhos até ovos com cogumelos, legumes grelhados ou queijos de meia cura.
“Por onde quer que eu vá,
teu glorioso nome brilha;
Sanlúcar, terra de sonho,
é meu amor tua Manzanilla”.
Fragmento do Hino à Manzanilla.