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Sangiovese

A uva que prospera sob o sol da Toscana

A variedade sangiovese é a uva tinta mais cultivada da Itália, o orgulho da Toscana e a essência dos renomados vinhos de Chianti.

Seu nome deriva do latim “sanguis Jovis”, que significa “o sangue de Júpiter” e é encontrada principalmente no centro e sul da Itália, desde a Romagna, passando obviamente pela Toscana e descendo em direção ao Lácio e Campânia. Os vinhos de sangiovese são saborosos e versáteis, redondos e elegantes, e com uma longevidade surpreendente.

História

Na Toscana, os etruscos foram os que presumivelmente começaram a cultivar a casta sangiovese por volta do século II a.C. Acredita-se que os romanos já produziam vinho com esta variedade tinta e, de fato, seu nome em latim faz referência a Júpiter, que era um deus romano.

A primeira referência escrita sobre esta uva apareceu em “O cultivo da videira”, um tratado escrito no século XVI por Giovan Vettori Soderini, um agrônomo italiano que afirmava: "Sangiocheto ou Sangioveto é uma videira notável por sua produtividade regular".

Embora faça referência ao deus Júpiter, também não se tem muito claro a origem de seu nome. Há lendas que afirmam que sangiovese deriva de "Sangiovannese" pois provém de San Giovanni Valdarno, uma pequena localidade italiana da província de Arezzo, na Toscana. Outros relacionam o nome “san giovannina” com o momento de sua brotação precoce, que coincidia com as festas de São João Batista, no final de junho, ou aqueles que afirmam que deriva de “sanguegiovese” que, como dissemos, significa o sangue de Júpiter.

Nem sempre a fama da uva sangiovese foi tão esplendorosa como agora a conhecemos. Era uma uva difícil de encontrar e quando seu nome aparecia em algum rótulo fazia referência a tudo menos a uma garantia de qualidade. Na Emilia-Romagna costumava-se elaborar um vinho tinto, Sangiovese di Romagna, que era doce, leve, pálido e ácido, que carecia de qualidade.

Os primeiros vinhos de Chianti também não foram exceção, pois para sua elaboração costumava-se utilizar uma mistura de vinhos onde aparecia a variedade branca trebbiano, ácida e de pele pálida, e se adicionavam outros vinhos importados do sul da Itália, de modo que se desconhecia o verdadeiro valor e características que a uva sangiovese aportava.

Foi somente quando começaram a ser realizados estudos sérios sobre a uva sangiovese e seus clones que se pôde determinar quais eram os melhores deles com o objetivo de proteger o valor real desta variedade e sua contribuição ao vinho, especialmente ao Chianti Classico.

A variedade sangiovese é uma uva muito sincera, que se expressa em função do território onde é cultivada. Em outros tempos, a variedade tendia a ser superproduzida, o que resultava em bagas com a pele fina e taninos ácidos nada favoráveis para os vinhos que com ela se elaboravam e que corriam o risco de oxidar-se em pouco tempo.

Entre 1970 e 1980, o marquês Piero Antinori estabeleceu a moda de elaborar vinhos que minimizavam a presença de sangiovese e adotavam o clássico corte bordalês utilizando variedades como a cabernet franc, a merlot ou a cabernet sauvignon. Assim nasceu o mítico vinho Tignanello, o primeiro sangiovese envelhecido em barricas e o primeiro tinto contemporâneo a utilizar uma mistura de variedades não tradicionais, como a cabernet sauvignon e a cabernet franc, oferecendo um corte muito ao estilo bordalês. Também foi um dos primeiros tintos na região de Chianti Classico que não incluiu variedades brancas em sua elaboração.

Hoje em dia, os bons produtores controlam os rendimentos das cepas para evitar a superprodução e assim oferecer uma concentração real de cor e sabor nos vinhos que elaboram.

Nos vinhos de Chianti ainda existe o corte, mas cada vez está mais regulado e controlado. Habitualmente encontram-se vinhos de Chianti com 100% de sangiovese. Atualmente, as autoridades só permitem adicionar até 25% de outras variedades que não sejam sangiovese e proibiram a utilização de uvas brancas para a elaboração do Chianti Classico.

Zonas de cultivo

Quando se fala da variedade sangiovese, na verdade se faz referência a toda uma família de uvas que se define por até cem clones desta videira que se foram adaptando a diferentes territórios ao longo do tempo.

A sangiovese é uma variedade de maturação lenta, que se adapta muito bem, embora prefira os solos argilosos ou calcários. Costuma ter produções abundantes, se estas não forem controladas. A colheita ocorre entre a segunda semana de setembro e a primeira metade de outubro. Suas bagas são ovóides, de tamanho médio a grande e têm uma pele violácea que tende ao negro.

É a uva italiana por excelência. Cultiva-se especialmente na Toscana, mas também se encontra na Emilia-Romagna ou na Úmbria. É a uva mais plantada na ilha francesa da Córsega, onde é conhecida como nielluccio. Foi muito popular na Argentina, podemos encontrá-la nos Estados Unidos (Califórnia e Washington) ou inclusive na Austrália.

Além dos famosos vinhos de Chianti, na Itália se elaboram com sangiovese outros vinhos com nome próprio, como o Brunello di Montalcino, que nasce no município italiano de Montalcino, localizado entre as colinas de Siena. Lá se selecionou um clone tânico e de cor intensa ao qual se deu o nome de brunello, que dá origem a um dos vinhos mais nobres e longevos da Itália. O Brunello di Montalcino é elaborado exclusivamente com brunello e é um vinho tinto de cor granada e perfume intenso. Um vinho com grande capacidade de guarda, que melhora com o tempo (10 a 30 anos) e que poderia conservar-se durante muitos anos mais.

O Vino Nobile di Montepulciano e o Vino Rosso di Montepulciano são elaborados em Montepulciano, uma localidade que se encontra justo a leste de Montalcino, onde se utiliza uma casta local de sangiovese conhecida como prugnolo gentile.

Na costa sul da Toscana (Scansano) elaboram-se vinhos tintos com a variedade morellino, que é como se conhece a sangiovese.

A uva sangiovese continua sendo a tinta da Romagna. Aqui podem-se encontrar vinhos que não gozaram de boa reputação quanto à sua qualidade. Por sorte, há produtores que começaram a engarrafar sangiovese de alta qualidade.

Na Úmbria elabora-se com a variedade sangiovese o delicioso vinho Montefalco Rosso e na ilha francesa da Córsega é a sangiovese a uva mais plantada. Aqui é conhecida como nielluccio.

Propriedades organolépticas dos vinhos de sangiovese

A variedade sangiovese é uma uva sincera, que mostra sem maquiagem as características dos lugares onde cresce. Esta capacidade camaleônica dá origem a vinhos saborosos, desde os mais terrosos e rústicos, até os mais redondos e frutados. Seus vinhos com a idade tornam-se mais suaves e aveludados.

Neles podemos distinguir sabores que lembram cerejas acompanhados por notas muito sutis de tomates assados, balsâmicos doces, orégano ou café expresso. Os vinhos, conforme envelhecem, podem oferecer matizes que lembram rosas e figos.

Também podem aparecer aromas que lembram violetas, amoras, ameixas secas, especiarias, tabaco e couro acompanhados por notas de baunilha. Se ao vinho faltar maturidade, pode apresentar aromas que lembram curral.

Harmonizações com vinho sangiovese

Os tintos elaborados com a variedade sangiovese geralmente são de corpo médio. São vinhos saborosos que harmonizam muito bem com tomate, pimentão vermelho e com ervas. Aqueles que têm mais corpo são ideais para acompanhar carnes assadas, embutidos curados e queijos duros.

Os vinhos de sangiovese costumam ter uma acidez presente que os torna versáteis acompanhantes de alimentos condimentados e de praticamente qualquer coisa elaborada na grelha ou que contenha gorduras, como manteiga ou azeite de oliva, pois a riqueza dessas gorduras ajuda a cortar os taninos do vinho.

São uma delícia para os vegetarianos pois acompanham com deliciosa maestria os alimentos vegetais.

Os vinhos da Toscana são ideais para harmonizar com a comida regional, como a ribollita, a bruschetta com tomate, o capacollo sienês ou a Bistecca alla fiorentina.

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