História do vinho do Ródano na região
O Vale do Ródano originou-se durante a última era glacial e é um sinuoso corredor que vai dos Alpes ao Mediterrâneo, onde os romanos já cultivavam a videira e produziam vinho há, pelo menos, 2.000 anos. Foram encontrados vestígios históricos que demonstram que os vinhedos do Ródano estão entre os mais antigos do mundo.
Na Idade Média, foi a igreja que impulsionou o desenvolvimento do vinho do Vale do Ródano, dando origem ao “vinho dos papas”.
No século XIV, o papado foi transferido de Roma para Avignon, e os papas, grandes apreciadores dos vinhos locais, foram os promotores do crescimento dos vinhedos na cidade. João XXII mandou construir uma residência de verão em Châteauneuf, então o distrito administrativo era conhecido como “Côste du Rhône” e só no século XIX o termo foi ampliado para incluir os vinhedos da margem esquerda do rio. Desde então, conhecemos esta região como Côtes du Rhône.
Em 1930, o Barão Le Roy, um visionário viticultor de Châteauneuf du Pape, lutou pelo reconhecimento da alta qualidade e das características únicas dos vinhos da região. Assim foi conquistado o status de Denominação de Origem Controlada (Appellation d’Origine Contrôlée, AOC, em francês).
Variedades de uva
O Vale do Ródano é considerado o berço da variedade syrah, uma uva tinta que alcançou fama internacional graças aos grandes vinhos que com ela se produzem.
Embora a maior parte dos vinhos da região sejam tintos de grenache ou syrah; e no caso dos brancos predomine a utilização das uvas viognier e marsanne, no Vale do Ródano são cultivadas cerca de 23 variedades autorizadas, entre as quais se destacam as seguintes:
Variedades brancas:
Bourboulenc, clairette, maccabeo, marsanne, picardan, roussanne, vermentino ou rolle, viognier, grenache blanc, muscat blanc, picpoul blanc e ugni blanc.
Variedades tintas:
Calitor, carignan, cinsault, counoise, grenache gris, marselan, mourvèdre, muscardin, clairette rose, grenache, muscat noir, picpoul noir, terret noir, syrah e vaccarèse.
Localização, clima e solos
O vale deste corredor sinuoso de 812 quilômetros de extensão possui solos tão ricos quanto diversos. Cada um deles confere propriedades e características únicas aos vinhos ali produzidos.
Na parte norte do Vale do Ródano (Ródano Setentrional) predominam encostas íngremes que se estendem a parcelas mais suaves onde a videira é cultivada em terraços que permitem aproveitar a superfície onde os solos são argilosos, rochosos e graníticos.
Aqui o clima é continental, com verões quentes, invernos frios e precipitações durante todo o ano.
Na parte sul do Ródano (Ródano Meridional) o vale se alarga e o clima muda. Abundam as planícies extensas onde a videira convive com um ambiente de vegetação mais mediterrânea marcada pelo matagal onde também crescem oliveiras, pinheiros e lavanda. Aqui os solos predominantes são os argilosos, rochosos, calcários e arenosos.
A região experimenta um clima com maior influência mediterrânea, mais “provençal”, com invernos suaves, verões quentes e longos e menor quantidade de precipitações que no norte.
No sul, contam também com um convidado especial, às vezes muito desejado e outras nem tanto: o Mistral.
O Mistral é um vento frio, seco e violento que sopra dos mares do norte a uma velocidade que habitualmente atinge os 100 km/h e que pode ultrapassar os 140 km/h.
Ocorre de novembro a abril e, devido à sua ferocidade, pode ser muito prejudicial para o vinhedo. Por outro lado, esses ventos também podem ser uma boa influência, pois proporcionam céus claros que permitem uma excelente exposição ao sol das videiras, além de ajudar a evitar a proliferação de fungos ao expulsar a umidade dos cachos. Também ajuda a regular as temperaturas do verão.
Classificação e regiões dos vinhos do Ródano
No Vale do Ródano há cerca de 67.628 hectares de vinhedos de onde se obtêm cerca de 3 milhões de hectolitros de vinho, o que equivaleria a encher 100 piscinas olímpicas.
75% do vinho produzido no Vale do Ródano é tinto, 15% é rosé e 10% corresponde ao vinho branco. Sua produção é distribuída entre suas 31 denominações que avançam a passos largos em sua conversão à agricultura orgânica. 50% dos vinhos produzidos já possuem a certificação que o comprova.
Denominações:
Côtes du Rhône
Em 1937 foi formalizada a criação da AOC (Denominação de Origem Controlada) Côtes du Rhône.
Côtes du Rhône é a denominação de entrada na região. Abrange uma área de 30 mil hectares e representa 50% da produção total, constituída principalmente por vinhos tintos à base de syrah ou grenache.
Vinhos ricos, generosos, agradáveis, com nuances especiadas, provenientes de vinhedos que possuem solos diferentes. Videiras plantadas em 171 comunas que se estendem desde a cidade de Vienne até Avignon e que dão origem a vinhos fáceis de beber e perfeitos para o dia a dia. Também podem ser encontrados vinhos brancos e rosés, mas são mais difíceis de encontrar.
Côtes du Rhône Villages
Cerca de 95 vilarejos pertencentes a quatro departamentos: Ardèche, Drôme, Gard e Vaucluse do sul do Ródano compõem a AOC Côtes du Rhône Village, criada em 1966, onde se produz uma enorme variedade de vinhos com estilos e características que dependem da natureza do solo onde as videiras são cultivadas. São vinhos mais complexos, com um pouco mais de álcool e aptos para envelhecimento.
Nesta Denominação, os critérios de produção são mais rigorosos. Embora os solos sejam semelhantes aos da AOC Côtes du Rhône, aqui podem ser distinguidos dois tipos de vinhos: os que nascem de solos pedregosos e argilo-calcários que dão origem a vinhos densos, carnudos, encorpados e com aromas potentes. E os que nascem de solos áridos e pedregosos que dão origem a vinhos agradáveis, elegantes, finos e frutados.
21 desses 95 vilarejos possuem um padrão de qualidade certificado que lhes permite adicionar o nome de seu vilarejo aos rótulos. Esses vinhos são conhecidos como Côtes du Rhône Village com nome geográfico.
Os vinhos tintos costumam ser finos e elegantes. Harmonizam muito bem com carne de caça, pato, vitela, porco assado, pratos elaborados com vísceras, ensopado de cordeiro, assim como com queijos duros e semiduros.
Os vinhos brancos possuem nuances florais e harmonizam perfeitamente com pratos elaborados com frutos do mar, sejam frios ou quentes, cremes de aves, coelho e com queijos em geral.
Os vinhos rosés têm notas frutadas que acompanham perfeitamente vegetais crus, saladas mistas, frango, embutidos, carnes grelhadas e pratos exóticos.
Crus de Côtes du Rhône
Existem 16 Crus determinados por sua capacidade de expressar as extraordinárias características de cada terroir através de seus vinhos. 8 deles estão localizados no norte e os 9 restantes situam-se na parte sul do Ródano e, no total, são responsáveis por 20% da produção de vinho do Vale do Ródano.
No norte:
AOC Côte-Rôtie
AOC Condrieu
AOC Château-Grillet
AOC Saint-Joseph
AOC Hermitage
AOC Crozes-Hermitage
AOC Cornas
AOC Saint Péray
E ao sul:
AOC Vinsorbes
AOC Rasteau
AOC Cairanne
AOC Gigondas
AOC Vacqueyras
AOC Beaumes des Venise
AOC Châteauneuf-du-Pape
AOC Lirac AOC Tavel
Outras denominações:
AOC Châtillon-en-Diois
Uma menção especial merece a AOC Châtillon-en-Diois que, embora não esteja situada exatamente no Vale do Rio Ródano, é um dos vinhedos de montanha mais altos da França. Sua altitude média é de 400 metros acima do nível do mar, mas pode ter parcelas de videiras plantadas a 700 metros de altitude. Está localizada entre o norte e o sul do Vale do Ródano, aos pés do Maciço de Vercors, nas encostas das cadeias subalpinas do sul cortadas pelo rio Drôme e seus afluentes.
Vinhos Doces
O Vale do Ródano possui duas denominações de origem onde se produzem vinhos doces naturais: Muscat-Beaumes-de-Venice e Vins Doux Naturel Rasteau.
Muscat-Beaumes-de-Venice:
É um vinho doce natural de fama mundial que é produzido a partir da variedade Muscat à petits grains que cresce em terraços centenários.
Vins Doux Naturel Rasteau:
Os vinhos doces de Rasteau são excepcionais. São produzidos com grenache de vinhas velhas que possuem uma excelente exposição ao sol e das quais se obtém menos de uma garrafa por cepa.
O vinho Golden Rasteau é de uma bela cor âmbar, com aromas de frutas secas, damascos e mel.
O Rasteau tinto é produzido a partir de uvas esmagadas e envelhecido em barricas onde evolui como se fosse um vinho rancio, resultando em notas de ameixas secas e especiarias picantes. Este vinho pode esperar até dez anos de guarda. Sua evolução resulta em notas de frutas secas e torradas.
Além de seus reconhecidos vinhos tintos, no Vale do Ródano são produzidos vinhos brancos com nome próprio como o Clairette de Bellegarde, elaborado com a rara variedade clairette blanche; e espumantes com denominação de origem como o Crèmant de Die, que é produzido a partir de um corte das variedades clairette blanche, aligoté blanc e muscat à petits grains.
Algumas vinícolas destacadas do Ródano
Maison M. Chapoutier
Mais de dois séculos respaldam a tradição e experiência da Maison M. Chapoutier, que produz vinhos em todas as denominações de origem do Vale do Ródano, sendo os mais conhecidos os que nascem em Hermitage. A partir da década de 80, sob a direção de Michel Chapoutier, consolidou-se a internacionalização dos vinhos de M. Chapoutier. Atualmente, a Maison possui 160 hectares de vinhedos no Ródano e continua sua transformação para práticas biodinâmicas. É a primeira vinícola a rotular seus vinhos em braille e possui vinhedos em outras regiões da França, em Portugal e na Espanha.
Domaine E. Guigal
Etienne Guigal fundou o Domaine em 1946, uma vinícola familiar com um vinhedo único situado na cidade de Ampuis, no centro de Côte Rôtie. Três gerações: Etienne (pai), Marcel (filho) e Philippe (neto) trabalham para conseguir alguns dos vinhos do Ródano mais prestigiados do mundo. Atualmente, o Domaine E. Guigal possui mais de 180 hectares de vinhedos localizados em diferentes denominações de origem do Vale do Ródano, onde produzem destacadas cuvées, cheias de nuances e sempre bem consideradas pela crítica internacional.